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09 dezembro, 2016

CLASSE ECONÔMICA

Ela mal teve tempo de abrir os olhos e descobriu que havia nascido de um acidente.  Sim, de um acidente, um descuido, ou melhor, de um imprevisto. Nada foi planejado até aquele momento. Ela então decidiu que dali para frente tudo seria diferente. Se naquele lugar ela não era amada, certamente haveria, em alguma parte do mundo, um lugar no qual as coisas fossem diferentes. Um lugar onde não houvesse espaço para imprevistos. Ela sentiu um desejo inexplicável de desbravar o mundo. E assim, nasceu um sonho, o seu sonho. Já na pré-escola passou a se interessar por geografia e línguas. E antes mesmo de ser imunizada contra meningite, papilomavírus humano e mal humor, já falava fluentemente diversos idiomas, até mesmo o Rotokas, o Xhosa e o Tofa. Era preciso estar preparada, afinal de contas, imprevistos a deixavam muito, muito doente. Ela sabia que os sonhos custavam caro, então, era preciso trabalhar e economizar. Ainda muito jovem, passou a trabalhar 6 horas por dia. O resto do tempo passava estudando e planejando a melhor forma de conhecer outros ares, outros mundos. Assim que saiu da escola, passou a trabalhar 12 horas por dia. Era preciso poupar, afinal de contas, pagaria os juros de 0,1% da poupança com seu sangue. Era uma questão de investimento! Deixava de comer para guardar as miseras migalhas do vale alimentação. Sim, ela passava fome em prol do seu sonho. Durante toda a sua vida profissional, ela teve um único trabalho. Era considerada a melhor funcionária de uma renomada fábrica de lingerie. Contudo, nunca ganhou um aumento, ou se quer um obrigado, e muito menos teve o prazer de usar uma calcinha de renda produzida na própria empresa. Na hora do almoço organizava o roteiro da viagem que mudaria a sua vida.  Cada detalhe era repassado todos os minunciosamente. Do tamanho da mala às despesas com o cafezinho do aeroporto, nada escapava do seu elaborado e colorido organograma. Chegou a prever o clima dos 20 anos subsequentes a sua partida, que seria um dia após a sua aposentadoria, no dia 31 de dezembro, uma sexta-feira, às 6:28 da manhã. Seria um dia chuvoso, fresco, ideal para viajar. Usaria seu vestido verde, com suas sapatilhas vermelhas e, finalmente, se daria ao luxo de usar uma calcinha de renda, de renda francesa, da empresa concorrente, que segundo ela, eram as melhores. Como o planejado, o grandioso dia bateu a porta. Ela finalmente estava pronta e livre para viver o seu sonho. De malas feitas, cabelo arrumado e o vestido desbotado, já fora de moda, foi até o ponto de ônibus mais próximo. Precisamente às 6:28 viu despontar, em meio a estrada esburacada, o ônibus que a levaria até o aeroporto. Ela sentiu, pela primeira vez, que deixaria tudo para trás. O novo mundo a esperava. Um mundo no qual ela poderia ser finalmente amada. E como previsto, sentiu as primeiras gotas de chuva cair sobre seus cabelos brancos. As leves gotas tingiram os fios brancos de vermelho, que escorreram da fronte em direção ao coração. O tempo havia mudado. E sem se dar conta, que fora atingida pela roda do ônibus que havia se desprendido, viajou sem ao menos sair da frente da sua casa. A pesada roda de borracha atingiu com força o seu sonho, tingindo de sangue o seu bem mais precioso. Finalmente, quase tudo saiu como ela tinha previsto, exceto que o imprevisto é sempre a melhor parte da viagem.

05 novembro, 2016

Maria & Mariá - II Versão

Irina Kotova
- Alô?
- Onde você está Maria?
- Sentada!
- Sentada?
- É, no ônibus!
- E onde você está?
- Na estrada!
- Sim, mas em que lugar?
- Não sei, tudo passa velozmente!
- Pergunta para alguém Maria!
- Não tem ninguém. Estou tonta! 
- E o motorista? Pergunta para o motorista!
- Ele trancou a porta, não dá!
- Faz tempo que você está viajando Maria?
- Não sei, eu dormi!
- Que horas você saiu? Olha no relógio!
- Eu não tenho!
- Olha aqui Maria, quando você chegar me procura! Estou te esperando.

Dias depois...


- Maria, por onde você andou? Até a polícia já está atrás de você!
- Eu me perdi!
- Mas como? O ônibus era direto!
- Acho que entrei no ônibus errado!
- E por que deixou de atender o celular que eu te mandei de presente?
- Acabou a bateria, então eu joguei fora!
- Maria, você precisa ser mais atenta! Onde está sua bolsa? Perdeu também?
- Eu não tenho!
- Um mulher sem bolsa? Onde já se viu isso Maria! Vamos pra casa, lá a gente conversa!

 No táxi...

- O que foi Maria?
- Para onde estamos indo?
- Para casa!
- Está me mandando embora?
- Não Maria, estamos indo para minha casa! (...) Toma, é para você não se atrasar mais!
- O que é isso?
- É um relógio mulher, nunca viu? De que mundo você veio?
- (silêncio).
- Desculpa Maria. (...) Pode deixar que eu guardo o seu novo relógio aqui.
- Você tem uma linda bolsa! – Sorriu.

Em casa...

- Me conta, roubaram suas coisas?
- (silêncio).
- Eu não gosto desse seu silêncio Maria! (...) Já sei, vamos comprar um vestido novinho para você!  Gosta de azul Maria? Olha como esse cai bem!
- É um espelho?
- É claro que é um espelho Maria! (...) E então, gostou do vestido ou não?
- Você é muito bonita!
- Vem aqui na frente do espelho Maria. Olha bem! Somos idênticas, não é?
- (silêncio).
- Gêmeas, é assim que se diz! Já viu duas pessoas tão idênticas quanto nós Maria?
- Eu não me lembro de ter visto um espelho antes!
- Não seja boba Maria. Olha pra mim, estou aqui para te ajudar!
- Mas foi você quem pediu minha ajuda.
- Graças a Fundação nos encontramos! Você fará parte de mim agora! Não é Maria?
- É lindo o espelho!

No hospital...

- Maria, se você quiser pode desistir!
- (silêncio).
- O que foi? O que está fazendo mulher?
- Aqui tem espelho?
- Não seja boba Maria, do que você está falando?
- Eu quero te mostrar uma coisa que eu descobri!
- Maria, fica! Você já é parte de mim!
- Então posso segurar a sua bolsa?
- Quando tudo isso terminar eu compro uma bolsa pra você! E um espelho. E até um vestido novinho!
- (silêncio).
- O que foi Maria? Está com medo?
- Como vai ser?
- Será como... dormir! Isso. Será como dormir.
- Então vai ser como sonhar?
- Sonhar? (...) Não sei Maria! Não sei!

Na sala de recuperação...


- Olha pra mim! Bem aqui, está vendo? Acho que agora não somos mais idênticas!
- Não diga isso Maria?
- Para onde vamos depois daqui?
- (Silêncio. E pela primeira vez, Mariá, com acento no A, chorou).

No dia seguinte...


Maria, com seu novo vestido azul, partiu ao amanhecer, deixando para trás uma parte de si. Na bolsa, apenas o pequeno espelho e o relógio, que passou a marcar as horas descompassadamente. De cabelos soltos e pés descalços, sentiu um estranho vazio, que logo foi preenchido com as primeiras estrelas do anoitecer.

(FR)ÁGIL - II VERSÃO

Evelina Oliveira
Primavera. Era.
Olhava para o céu. Esperando.
Da longa espera, cresceu.
Em tamanho e sonhos.
E na dimensão do universo, ainda esperava.
Recebeu bilhetes e logo cartas perfumadas.
O sino, no alto da torre, consumou sua sina.
Acaso? Um caso. Idiofone.
Quando se deu conta, já não era mais solidão.
Transformou-se em duplo, que no fundo ainda era um só.
O verão despontou no horizonte e avante.
Houve tempo para Epiphyllum Oxypetalum, carícias e beijos.
O mundo lhe foi apresentado. Desvendado.
Brisa e chuva. Cores e valores.
O tempo lhe foi tomado. Ágil.
Os fusos eram cada vez mais confusos.
Para o seu delírio, receitam colírio.
Folhas se apagaram. Lembranças secaram.
Tudo passou num piscar de olhos. Sem retorno e recomeço.
Bastar-se a si mesmo?
E apesar da autoridade da idade, ainda olhava para o céu.
Esperando.
Almejando.
A Estrela.
A hora da Estrela...

Cadente

21 março, 2016

A MENINA E O PORQUINHO (II Versão)

Alexander Sokht
Maria era uma menina curiosa que adorava o seu porquinho. Ainda quando menina recebeu de uma tia distante uma mala repleta de lindas roupas - que ficaram guardadas à espera de que a menina crescesse. Eram roupas de todos os tipos: casacos de lã, blusas coloridas, saias estampadas, calças listradas, luvas de fina renda, chapéus enormes, meias de bolinha e até lenços de seda. A mala tornou-se o sonho da menina. Sempre que se sentia triste corria para experimentar cada uma das roupas – na esperança de que alguma servisse! Sonhava com o dia em que desfilaria com o lindo vestido ou exibiria as lindas luvas de renda. O tempo passou e Maria cresceu. Finalmente, numa tarde chuvosa de domingo, o vestido lhe serviu como uma luva, porém, ela já estava grande demais para se encantar com a delicadeza das rendas ou com as cores do vestido já desbotado. Ela então esqueceu a mala e enterrou o seu porquinho. As roupas ainda eram as mesmas, no entanto, a menina já não era mais menina.

01 abril, 2014

DE-SA-PEGO!

Loreto Salinas


Escrevi histórias na expectativa de um dia voltar para aperfeiçoá-las. E aqui estou! E por incrível que pareça, não me lembro de ter escrito tal coisa, dessa forma, desse jeito... Agora fico receoso de mexer naquilo que talvez não me pertença mais!


05 maio, 2013

A CASA DA CRISTALEIRA

Fred Calleti

A vida até que era boa, se não fosse a cristaleira sempre cheia de pó. Mas isso era apenas um detalhe. Um detalhe insignificante. A nova empregada era tão competente, que ela mesma limpava toda a cristaleira só para não aborrecê-la com coisinhas tão insignificante. Ela, definitivamente, não tinha nascido para mandar em estranhos! Ao longo dos anos desenvolveu uma ótima estratégia: mandava no marido! Todos os dias, antes dele sair para trabalhar, obrigava-o a instruir e inspecionar o serviço da empregada. Assim, todos os dias, antes e depois de um dia exaustivo de trabalho, o pobre homem repassava as dezenas de instruções para a empregada – todas descritas minunciosamente no “caderninho da faxina”. Enquanto ele orientava a empregada, ela saia para passear com a bebezinha e a cachorra pelo centro da cidade. Caminhava durante toda a manhã, na expectativa de chegar em casa e encontrar tudo conforme havia planejado. E para garantir que o dia fecharia com chave de ouro, obrigava o maridão a lhe trazer chocolates finíssimos – que eram guardados dentro da cristaleira. Como estava de regime, guardava os chocolates dentro de uma linda baixela de cristal - o local ideal para guardar aquelas delícias! Faltava perder apenas um quilo, para finalmente deliciar-se com todas aquelas guloseimas escondidas. As guloseimas eram o prêmio, caso a dieta da proteína desse certo. Sonho maior do que perder alguns quilos, era poder ver a cristaleira reluzindo. 
- Se as portas da cristaleira permanecerem sempre fechadas, a danada da poeira não entra! – Pensava. Porém, sempre ao chegar em casa, depois das longas caminhadas, encontrava a cristaleira com a porta entreaberta e repleta de poeira. E os chocolates? Restavam apenas as embalagens vazias. 
- Não acredito que aquela, aquela... devorou minhas preciosidades! A danada está com o paladar muito apurado! - Pensou. Ela precisava tomar uma decisão mais drástica. Concluiu que não bastava pedir para que o marido orientasse a empregada de como limpar a cristaleira, era preciso que ele também a proibisse, de uma vez por todas, de tocar nos seus chocolates. 
Ao anoitecer teve uma grande ideia. E assim, ela passou o resto do dia esperando ansiosamente o marido chegar. Era preciso contar-lhe o novo plano. Para que tudo corresse conforme havia arquitetado, chegou a presentear a empregada com uma dúzia de caixas de chocolate do mercado da esquina, e ainda lhe deu o resto da semana de folga. 
- Querido! Que bom que você chegou! Ah! Chocolates pra mim! Mas você é um doce mesmo. O que? Não, não tem janta! Sim, dei folga pra ela. Não, fica aí de pé! Olha o que eu escrevi aqui no seu “caderninho da faxina”! Então, o marido leu incrédulo:
“A partir de hoje a empregada estará sempre de folga enquanto houver chocolate na cristaleira!” - Ele, tristonho, retrucou:
- Querida, eu queria que apenas por um dia você me  tratasse como trata a empregada!
Ela, de costas, espanando meticulosamente a cristaleira, nem reparou os lábios do marido lambuzados do mais fino chocolate.

13 março, 2013

QUANDO DEZEMBRO VIER

Loreto Salinas (La niña sin sombra)
E ela acordou. De olhos bem abertos viu um longo corredor. Sem perder tempo, percorreu descalça sobre o tapete macio e viu inúmeros retratos de família, da qual ela fazia parte. Ao final do corredor se deparou com o café da manhã servido por aquela que parecia ser a sua mãe. E ela ouviu o primeiro “bom dia” da sua vida.. Elas se olharam demoradamente - como mães e filhas sabem fazer!  Em silêncio e completa cumplicidade elas compartilharam o melhor café da manhã. E diante da mesa repleta de pães, geleias e ternura, ela adormeceu.  
Sem saber quanto tempo depois, acordou – dessa vez cercada de amigas – amigas das quais não lembrava os nomes. Olhou em volta, enquanto todas dormiam e não entendeu nada. Era estranho sentir-se bem em um lugar desconhecido como aquele. Viu algumas bonecas de pano sobre o sofá, cartazes de filmes antigos na parede e muitos livros espalhado pelo chão. Ela sentiu algo novo: o desejo de mudar o mundo. No entanto, entendeu que era ela quem precisava ser diferente! Inevitavelmente se despediu, mais uma vez, daquele momento único – contra a sua vontade ela dormiu. Se pudesse escolher, certamente não teria acordado naquela manhã chuvosa. Quando se deu conta já estava vestida em roupas escuras – que lhes serviram perfeitamente. Sim, eram suas aquelas roupas! E aquele dia, aquele único dia, também era seu – um dia de despedida. Até as flores que levava em suas mãos também estavam mortas! No meio de todas aquelas pessoas, pela primeira vez, ela só desejava uma coisa: dormir! Ela se fez como o silêncio durante aquele longo e triste dia. Procurou de várias maneiras adormecer ali mesmo sobre a grama e a terra molhada. Quanto mais desejava deixar de ser, mais ela era, mais ela sentia tudo intensamente. E por uma eternidade não se cansou ou adormeceu. Estava presa naquele dia que se tornou a sua incomensurável noite.
De seu cansaço surgiu outra manhã qualquer. Inexplicavelmente ela foi acordada com um leve beijo nos olhos. Mesmo sem lembrar-se onde estava ou com quem estava, não sentiu medo. Sentiu-se estranhamente amada e protegida. Eles não conversaram, apenas se olharam demoradamente. Ela tocou delicadamente aqueles olhos que a protegiam e viu refletido neles o seu próprio destino. E num piscar de olhos a noite chegou. Quis olhar mais demoradamente, sentir mais intensamente! Porém, não teve forças para se manter por mais tempo acordada. Desejou que aquele momento durasse para sempre. Com os olhos envoltos em lágrimas, não de tristeza, mas já de uma profunda saudade, adormeceu. Rápido como o bater de azas de um beija-flor, a noite chegou e encontrou-a dormindo – dormindo outro sono sem sonho. E no tempo de que cada coisa leva para acontecer, ela acordou! Com os olhos bem abertos viu um quarto esverdeado com um grande relógio, ouviu também o som intermitente de uma máquina – concluiu que era de onde saia o ar que a alimentava! Estava imóvel, compenetrada na sua condição, que em vão mais uma vez tentava entender. Sentia muitas dores - uma após a outra. O tempo lhe parecia querer conversar, tomar um chá, contar demoradamente suas peripécias! Mas não havia nenhuma lembrança que pudesse confortá-la. De olhos fixos no relógio contou cada minuto, cada hora, na esperança que sua agonia tivesse fim. E o tempo ficou ali, lhe segurando a mão, imóvel! Fechou os olhos não sabe se durante horas, dias ou anos... Quando ela finalmente se esqueceu de si mesma, adormeceu profundamente! E não sonhou!

O sonho era a sua própria vida. Os bons e os ruins. Ela jamais soube explicar o por que de acordar cada dia em um lugar, em uma nova vida – sem ao menos saber se estava acordada ou dormindo para sempre. E antes mesmo que qualquer resposta fosse encontrada, ela acordou...

14 agosto, 2012

CASTELOS DE AREIA

Fatima Ronquillo

Ele acordou pronto para brincar no seu castelo de areia construído na praia, em frente a sua casa. De olhos abertos percebeu o corpo cansado, muito cansado. Sem conseguir se mover, viu ao redor da cama muitas pessoas, mas não reconheceu nenhuma delas. Não encontrou a sua mãe e nem mesmo o seu pai. Suas últimas lembranças eram de um dia de sol, com o vento no seu rosto, as ondas do mar, ondas de todos os tamanhos, e dos gritos da sua mãe! De olhos bem abertos não entendeu o porquê daquela festa com balões, bolo e até velas – dezenas de velas! Todos à sua volta comemoravam: crianças, jovens, casais, senhoras, fotógrafos, muitos fotógrafos e até enfermeiras e médicos! O que ele teria feito de tão milagroso? Certamente a felicidade era apenas parte daqueles desconhecidos! Que milagre haveria em acordar aos cem anos de idade? Sentiu como se tivessem lhe roubado todas as lembranças, os mais sublimes sentimentos! Naquele momento ele era o próprio castelo de areia da sua infância, que outra vez se desmancharia com a força das ondas do mar – mas dessa vez sem ninguém para salvá-lo, e nem mesmo  tempo para se reconhecer em uma nova vida.


Para ler ao som de The Day All My Dreams Come True de Patrick Doyle

10 agosto, 2012

A PEQUENA LOJA DOS DESEJOS

Alexander Sokht 

Maria era uma menina curiosa que adorava o seu porquinho. Aos seis anos de idade recebeu de uma tia muito distante uma mala repleta de lindas roupas - que ficaram guardadas em cima do guarda-roupa a espera que a menina crescesse. Eram roupas de todos os tipos: coloridas, estampadas, lisas, de algodão e até seda. O guarda-roupa tornou-se o sonho da menina – era a sua lojinha particular. Sempre que se sentia triste corria para experimentar cada uma das peças – na esperança de que alguma servisse! Sonhava com o dia em que desfilaria com o lindo vestido rosa ou exibiria as lindas luvas brancas de renda. Tão rápido como se realizam as velhas brincadeiras de infância, Maria cresceu. Finalmente, numa tarde chuvosa de domingo, o velho vestido lhe serviu como uma luva, porém, a menina já estava sabida demais para se encantar com a leveza do tecido ou com a delicadeza das rendas. Ela esqueceu o guarda-roupa e enterrou o seu porquinho. As roupas ainda eram as mesmas, no entanto, a menina já não era mais menina.

25 julho, 2012

POST MORTEM



De quem é essa imagem?
(abre a porta)
- Querido, sabia que até a minha cabeleireira acredita em vida após a morte?
- E que vida é essa que vocês levam antes da morte?
- Ela disse que as minhas unhas e os meus cabelos vão continuar crescendo mesmo quando o meu corpo estiver morto!
- Então do que adianta todo esse regime!
- Não é o corpo que cresce, são as unhas e o cabelo! (...) Quero pelo menos ter o direito de morrer magra!
- Do jeito que usa esses produtos nas mãos e na cabeça é provável que nunca emagreça, mesmo depois de enterrada!
- Olha aqui querido, não me venha com essas suas ideais malucas não!
- Vamos abrir uma porta maior aqui na sala, não quero ver um caixão saindo pela cozinha!
- Esta outra vez dizendo que estou gorda?
- Eu não disse isso querida!
- Agora está insinuado que estou ficando louca é?
- Para com isso, os vizinhos vão ouvir!
- Só o que me faltava, agora está me chamando de histérica!
- Eu só disse que precisamos abrir uma porta maior na sala... Seria desagradável um caixão sair pela porta da cozinha!
- Está dizendo que vou morrer primeiro?
- Não querida, você não vai morrer! Não foi isso...
- Ah, então de uma hora para outra passou a acreditar em vida após a morte?
- Você está passando dos limites!
- Estou cansada de limites... de medidas... Se eu não vou morrer, como você mesmo disse, não vejo problema nenhum em seu caixão sair pela porta daquela cozinha!

(bate a porta)

06 junho, 2012

ONDE NASCEM OS SONHOS


Nicoletta Ceccoli
Ele acordou e desceu as escadas atraído pelo som que vinha da cozinha. Pela primeira vez, em toda a sua vida, viu que não estava sonhando. Lá, de pé, com a velha xícara de chá nas mãos estava ela – que todos os dias havia lhe desejado bom dia. Emocionado, abraçou-a fortemente, desejando que aquele momento durasse para sempre. Ela, sem entender nada, ofereceu-lhe o chá, antes que esfriasse. Ele bebeu, na esperança que todas as dores fossem esquecidas. Eles se olharam demoradamente, como nunca haviam feito. Ela compreendeu o silêncio que se fez e ele finalmente se deu conta de que outra vez havia anoitecido. Ela lhe acariciou o rosto e lhe beijou os olhos desejando o último boa noite de sua vida.

Para ler ao som de Where Dreams Are Made de John Willians

10 novembro, 2011

A VIDA DOS OUTROS


Fernando Montiel Klint
Ele não acreditava em nada. Ela acreditava em tudo. Ele dizia que a vida era para ser vivida. Ela dizia que a vida era para ser resguardada. Ele acordava cedo. Ela? Não acordava! Dormia na esperança de economizar o tempo que lhe restava. Ele acreditava na morte – sim, na morte definitiva. Ela acredita na paraíso – um lugar repleto de delícias!


Continua...

08 novembro, 2011

O PESO DA ALMA


Joe Sorren
A cada amanhecer uma nova vida – era assim que ela compreendia o existir. E com o entardecer vinha a angustia da sua breve existência. Ela não sabia que o sol se punha, acreditava que ele se apagava, morria – e assim, com ele, todas as outras coisas, inclusive ela. Tinha o dom de viver apenas um dia.
- Um dia é tempo suficiente para se viver? – pensava.
Ela desconhecia a existência do tempo – o tempo para ela estava dentro de si, já que era ela que envelhecia. Fora dela, tudo parecia imutável. Mesmo assim, aprendeu que a esperança era da natureza da eternidade. Suas divagações só eram interrompidas com água sanitária – uma inexplicável aversão por água sanitária. Talvez uma explicação plausível estivesse na única lembrança da sua infância.
Quando criança aprendeu na escola que a carne em contato com o ar entrava em estado de putrefação, e, como consequência, surgiam vermes cegos e moscas esverdeadas. Ela que não era boba, logo entendeu que a vida era apenas uma mudança de estado. Concluiu que os mortos, cegos como vermes, enterrados em seus miseráveis caixões, logo se transformavam em lindas moscas a vagar pelo mundo. A partir daquela experiência aprendeu a respeitar os vermes e principalmente as moscas - aí de quem as matasse:
- Que mosca teimosa! - Dizia a mãe. - Minha filha, tapa esse bolo! Jesus, que mosqueiro é esse nessa casa?
- Não mata essa mosca mamãe, ela pode ser a falecida vovó que veio nos visitar!
A mãe nunca entendeu as insólitas associações da filha e muito menos a sua adoração por moscas. Era doentia a forma como a pobrezinha espalhava restos de alimento pelo quarto como forma de agradar não as moscas, mas os entes falecidos que vinham visitá-la!
Os insetos fascinavam-na e por isso se tornou professora de matemática – logo aprendeu a calcular tudo, até mesmo o peso da alma.
- A alma pesa 0,09 gramas – dizia. É o peso ideal para caber em uma mosca!
Ela não cursou biologia para não perder o encanto pela vida. Se recusou também a aprofundar seus conhecimentos em artes – não queria compreender os mistérios da alma. Era melhor quantificar e contabilizar as coisas:
- No mundo existem 80 mil espécies de moscas, 7 bilhões de pessoas e apenas dois tipos de almas: as boas e as más.
Acreditava que só as almas boas se transformavam em moscas. As pecadoras estavam fadadas a viverem como vermes cegos nas profundezas da terra. Aquelas que tinham só um pecadinho, um bem pequenininho, até poderiam ser uma drosófila – mas era preciso ter muita fé.
Antes que se cumprisse a sua sina, ajudava as pessoas – acreditava que era para isso que as pessoas nasciam! Por outro lado, nunca a ajudaram – nem mesmo a entender a sua aversão por água sanitária.
Talvez a explicação estivesse relacionada a ideia de que o produto fosse capaz de esterilizar, destruir, acabar com tudo: bactérias, fungos, protozoários, vermes, cores, lembranças e até mesmo os seres humanos da face da terra.
- Um mundo asséptico seria doentio! – Pensava.
E assim, ela passava o seu único dia de vida tratando de todas essas ínfimas questões. Até tinha tempo para sonhar com a compra de uma linda mansão para abrigar todas as moscas do mundo – seria um santuário! Infelizmente, com o pôr-do-sol, se dava conta de que assim como os vermes, ela logo mudaria de forma, de estado.
- Pra que uma mansão se o que nos resta é ficar cegos no fundo de um túmulo úmido e frio? (...) Éh, pelo menos as moscas voam! - Concluiu.
Tinha pavor de ser cremada – pior do que isso era ser ungida com água sanitária. Ela realmente desejava viver intensamente - em qualquer forma de vida, mesmo que fosse por um dia. Mas assim como era inevitável que o sol se apagasse, também era impossível impedir que se cumprisse o seu destino. E com o fim do dia ela também se despedia de tudo com lágrimas nos olhos.
E misteriosamente com o novo amanhecer, ela outra vez despertava, em uma mesma nova vida – inconsciente da sua verdadeira existência. E a cada dia, surpresa, não sabe se por causa do sol ou das moscas em sua mansão, cantava para comemorar – sabendo que o fim se aproximava:
- A esperança é da natureza da eternidade – Sonhava.

02 novembro, 2011

IMPÉRIO DA RITALINA

Ahren Hertel
Seu maior medo era da solidão. O silêncio lhe causava dor. Mesmo sozinha em casa, falava pelos cotovelos. Ainda quando menina aprendeu que casar era o melhor remédio. E remédio foi o que ela mais experimentou. Já como mulher feita, os remédios ainda lhe pareciam mais atrativos do que um marido – já que vinham acompanhados de bula. Às vezes sonhava que um lindo jovem enfiava o dedo no seu olho, a ponto de sangrar, só para abrir a janela da sua alma. Em um misto de dor e prazer, tentava se acalmar, afinal, eles queriam apenas conhecê-la profundamente.

Constantemente tinha pensamentos quase involuntários sobre a morte: morrer afogada ou desnutrida? - Pensava. Afogada precisaria de um rio. Sim, de um rio, queria uma morte cinematográfica. Porém, morrer desnutrida, bem magrinha, tinha lá suas vantagens – pois poderia ser enterrada no seu velho vestido branco de tamanho P. De acordo com seus experimentos, concluiu que quanto mais aprendia mais ela crescia. Seria maravilhoso poder se despir de todo conhecimento só para caber naquela delicada peça de roupa ainda tão macia. Assistindo TV entendeu que precisava ser salva. Morrer lhe parecia muito trabalhoso. Mas como poderia salvar a sua alma?
- Onde mora a minha alma? – se perguntava. Por um momento cogitou que era na barriga. Com a TV aprendeu que só os justos tinham uma alma leve.
- O que será de mim com uma barriga desse tamanho? - Ficou aflita em pensar o quão triste poderia ser o seu julgamento, o seu fim.
E foi na primavera, em um lindo dia de sol, que ela teve a fantástica ideia de mudar de vida. Cadastrou-se em um site de casamento coletivo. Na ficha de inscrição preencheu todos os dados minuciosamente. No item “o que procura” não exitou em responder: a SALVAÇÃO.
Após enviar o formulário só lhe restou esperar. Deitada, nua com o seu velho vestido branco sobre o corpo, ingeriu os últimos comprimidos que lhe pareciam colorir a vida. O dia seguinte chegou – e ela não acordou. Dormiu. Dormiu até a sua alma se tornar leve. E somente no verão ela acordou - vestida de branco e sem nenhuma barriga. Aos pés da cama encontrou o padre e logo percebeu um homem que lhe segurava a mão direita. Foi então que identificou naquela mão, o dedo, um enorme dedo, que agora não lhe furava o olho, mas que lhe acariciava os lábios. Sem pensar no pecado, na alma ou na sua barriga, ela gritou sim, sim! Fechou os olhos e repetiu para ela mesma: sim, sim, sim.... Até que chegou o outono:
- Meu amor - dizia o marido - precisamos estocar comida, logo seremos uma família bem grande.
Ela então ganhou uma geladeira. Não poderia existir felicidade maior.
- Que linda meu amor, mas não é Frost Free? – Indagou desconfiada.
- Não precisa, estarei sempre aqui para descongelá-la pra você – garantiu o marido.
Realmente não poderia existir felicidade maior do que aquela: uma geladeira e um marido para descongelá-la. Seu futuro estava garantido.
E foi no início do inverno que os corações congelaram. Ele partiu e ela chorou. Chorou não sabe se por causa da solidão ou por ter que descongelar periodicamente a bendita geladeira.
- Ah, se meu coração fosse FROST FREE! – pensava.
Ainda com seu velho vestido branco, que deixou de ser macio, ela conheceu o vazio, um profundo vazio - e dessa vez aprendeu que não era fome. Como pode ser enganada com a promessa de que ele descongelaria para sempre a sua geladeira. Sem pensar duas vezes comeu todos os restos congelados de saudade e esperança. E naquele mesmo inverno, em uma linda noite estrelada, ela tocou a sua enorme barriga e percebeu que ali não morava o pecado, muito menos a sua alma, mas sim a realização de um sonho: o início de uma nova vida.

13 abril, 2011

ESPERANÇA AMARELA

Jos van Riswick

Mais uma vez o sol nasceu como no era uma vez. E no era uma vez nasceu, como o sol, Maria. Dentro dela havia todos os sonhos. O mundo parecia estar ao alcance das suas mãos e longe dos seus pés. Vivia entretida na sua própria casa, no entanto, era no pomar que seus olhos brilhavam. Suas primeiras lembranças estavam lá enterradas como uma pequena semente. Ela já não lembrava mais porque aquela semente era tão especial. Procurava, em vão, fincar os pés no presente. Talvez o interesse pelo pomar, já coberto por ervas daninhas, fosse explicado pelo desejo de ver florescer a cor daquela estranha semente. Ela era feita de esperança – a esperança de um dia ver brotar o pé de alguma coisa. O pomar era cercado de pedras, como uma fortaleza, que só deixava entrar a luz do sol. Até mesmo os jornais lançados sobre o muro, ao longo dos anos, acumularam próximos ao portão. Maria desistiu de apanhá-los logo nas primeiras tentativas – impedida por suas frágeis rodas. As notícias eram de um presente envolto em nuvens carregadas que jamais choveram sobre os seus olhos. Maria, já esquecida da sua existência, quase deixou o sol se apagar também. Certo dia, quando suas rodas resolveram bravamente deslizar pelo pomar, depararam-se com algo extraordinário.
A pilha de jornais, outrora um empecilho, havia se transformado em uma ponte, que finalmente a uniu ao lindo pé de alguma coisa. E lá estava ela, a sementinha, agora transformada, irreconhecível. Maria se perguntou como aquilo havia acontecido - seria um sonho? Se ao menos tivesse dormido! A beleza do pé atraiu borboletas e pequenos pássaros, que semearam inúmeras flores. Aqueles galhos viçosos e as folhas verdes revelaram, bem lá no alto, um pequeno fruto. Maria deixou os jornais de lado e se dedicou a observá-lo. Percebeu que era tímido, já que amadurecia lentamente. Certo dia, ao nascer do sol, descobriu que se tratava de uma linda ameixa. Foi aí que desejou que suas rodas a levassem até lá – de forma que pudesse senti-la com as próprias mãos. Maria se posicionou estrategicamente debaixo da ameixeira e esperou - esperou que o pequeno fruto amadurecesse completamente e caísse nas suas mãos sobre o colo:
Essa pequena ameixa vai se chamar esperança! – Pensou Maria.
Mas a pequena ameixa demorou muito a revelar a sua verdadeira cor. Maria ficou lá sentada, sozinha, esperando. E assim, mais uma vez, o sol nasceu como no era uma vez e Maria, sobre as suas rodas, secou. O tempo passou. Finalmente a ameixa amadureceu e caiu próximo das rodas de Maria, e também secou, revelando no meio da casca protetora uma semente - conhecida como Maria. E naquela hora nada mais importava, pois as lembranças brotariam mais uma vez no lindo Pé de Maria.

02 março, 2011

DEVIR...

Jeannette Woitzik

Ela foi planejada em uma manhã de outono e nasceu estranhamente em um dia frio de inverno. Contam que quando ela nasceu não parou mais de chover, e nunca mais anoiteceu. Os dias eras tão longo que se tornaram infinitos. Assim que abriram as janelas ela também abriu os olhos e viu o mundo. Mesmo tão pequena, tão insignificante, ela desejou fazer parte daquele mundo iluminado. Ela não se importou com toda aquela chuva – na verdade ela achou bem bonito. Assim que foi cercada de cuidados ela percebeu a sua fragilidade. Ela não entendeu porque todos faziam tanto silêncio. Seria para ouvir o som da chuva? Na primeira vez que ela encontrou os olhos da mãe, descobriu porque chovia tanto. Na primeira vez que ela viu os olhos do pai ela descobriu o porque de tanto silêncio. E foi no silêncio da chuva que ela se sentiu profundamente amada. Mesmo tão pequena e inexperiente ela já sabia sonhar. Foi então que fechou os lindos olhos e desejou existir para sempre naquele momento. Seu corpo se tornou cansado e seus movimentos logo cessaram. Em tão pouco tampo ela aprendeu que o sonho era pequeno demais para ela. Algo maior a esperava. Com o passar das horas ela entendeu finalmente que os dias não eram eternos. Foi com o anoitecer que ela se deu conta de que havia vindo ao mundo para existir por apenas um único dia. Entre o princípio e o fim da sua breve existência ela conheceu apenas a chuva e fez renascer todas as primaveras do mundo.

23 fevereiro, 2011

LADRÃO DE EFEMERIDADES


Obra de Ana Maria Pacheco


Quando abriu os olhos o quarto estava do mesmo modo em que havia deixado antes de dormir. Ao entrar no banheiro viu na janela uma estranha de cabelos negros que a olhou no fundo dos olhos. De olhos fechados desejou que tudo aquilo fosse um sonho. Tentou descobrir como alguém poderia ter entrado. Ainda de olhos bem fechados lembrou que no banheiro não havia janela. Ela, surpresa, ergueu-se diante da misteriosa janela e abriu os olhos. Confusa, analisou cada milímetro daquele rosto cansado e descobriu que a estranha era ela refletida no espelho.
- O que você fez durante todos esses anos presa aí dentro?
Por um momento o silêncio se fez resposta refletido no espelho. Inquieta, escovou os dentes observando estranhas baratas invadirem o seu quarto. Correu até a janela e a encontrou entreaberta.
- Então é por aqui que estão entrando? O que essas baratas querem de mim? – Esbravejou.
As baratas eram a prova que faltava.
- Roubaram-me enquanto eu dormia! – Pelo tamanho da fresta concluiu que alguém mais havia entrado no quarto.
Ela, inconformada, analisou todos os seus pertences. Tudo pareceu estar no seu devido lugar. Abriu o guarda-roupa e lá estava intacto o seu segredo: uma linda caixa de vidro decorada com fitas verdes. Abriu a caixa cuidadosamente observando as velhas fotos e uma única carta de amor. Ficou ali sentada durante horas, entretida com aqueles estranhos pertences. Com os olhos cheios d’água sentiu-se enganada. Que amor era aquele descrito naquela carta? Quem eram aquelas pessoas naquelas fotos? Quem poderia ter feito aquilo com ela? Seria um plano para implantar aquelas lembranças em sua memória?
A noite se aproximava, e ela, cansada, desistiu de entender o que tinha acontecido. Fechou a caixa, a janela e desistiu de procurar o que mais poderia estar faltando. Na verdade, não percebeu, assim que dormiu, que haviam lhe roubado todas as lembranças.

08 fevereiro, 2011

Maria & Mariá

Nicoletta Ceccoli

- Alo?
- Onde você está Maria?
- Sentada!
- Sentada?
- É, no ônibus!
- E onde você está?
- Na estrada!
- Sim, mas em que lugar?
- Só vejo mato!
- Pergunta para alguém Maria!
- Não tem ninguém no ônibus.
- O ônibus tá parado?
- Anda velozmente!
- Então pergunta para o motorista!
- Ele fechou a portinha, não dá!
- Faz tempo que você está viajando Maria?
- Não sei, eu dormi!
- Que horas você saiu? Olha no relógio!
- Eu não tenho!
- Não tem?
- Não! Nunca precisei!
- Olha aqui Maria, quando você chegar me avisa!


Dias depois...


- Maria, por onde você andou? Até a polícia já está atrás de você!
- Eu me perdi!
- Mas como? O ônibus era direto!
- Entrei no ônibus errado!
- E por que deixou de atendeu o celular que eu te mandei?
- Acabou a bateria! Não tinha como comprar outra, daí joguei fora!
- Maria, você precisa ser mais atenta! Onde está sua bolsa? Perdeu também?
- Eu não tenho!
- Um mulher sem bolsa? Onde já se viu isso Maria!
- Nunca precisei!
- Olha aqui Maria, quando chegarmos em casa a gente conversa!

 No táxi...


- O que foi Maria?
- Para onde estamos indo?
- Para casa!
- Está me levando de volta?
- Não Maria, estamos indo para minha casa! Está vendo aquela placa? É lá que eu moro!
- Você mora naquela placa?
- Não criatura, aquela é a foto de onde eu moro!
- E por que está escrito aquilo?
- Por que lá não tem pobre!
- (silêncio)...
- Desculpa Maria, não foi o que eu quis dizer!
- Você tem uma linda bolsa! – Sorriu.


Em casa...


- Pode deixar suas coisas no quarto! Ah, eu me esqueci! Me conta, roubaram suas coisas?
- (silêncio)...
- Eu não gosto desse seu silêncio Maria! (...) Bem, acho que vamos ter que comprar um vestido novo para você!  Gosta de azul Maria?
- É um espelho?
- Sim, Maria, é um espelho, está vendo?
- Você é muito bonita!
- Olha bem Maria, somos identicas, não somos?
- (silêncio)...
- Gêmeas, é assim que se diz! Não é maravilhoso Maria?
- Eu não me lembro de ter visto um espelho antes!
- Não seja boba Maria...
- O que tem do outro lado?
- Lá vive a Mariá, com acento no A! Conhece?
- (Olha-se, toca sua imagem no espelho e chora. Silêncio)...
- Era só uma brincadeira Maria! Eu estou aqui, na sua frente, para te ajudar!
- Não fui eu que vim para te ajudar?
- Eu já tinha esquecido! Graças a Fundação nos encontramos! Você fará parte de mim agora! Não é Maria?
- É lindo o espelho!


No hospital...


- Está tudo bem Maria?
- (silêncio)...
- Se quiser pode desistir!
- (silêncio)...
- O que está procurando?
- Aqui tem espelho?
- Não seja boba Maria, do que você está falando?
- Estou feliz por ser útil, pelo menos uma vez!
- Eu que agradeço! Você já faz parte de mim!
- Posso segurar a sua bolsa?
- Quando tudo isso terminar eu compro uma pra você!
- (silêncio)...
- Está com medo Maria?
- Como será?
- Acho que vai ser como dormir!
- Vai dar tempo de sonhar?
- Não sei Maria! Não sei!
- (adormecem)...


Na sala de recuperação...


- Se não fosse você Maria, eu não estaria mais aqui!
- Para onde você iria nesse estado!?
- Ora Maria, que observação boba! Você sabe muito bem do que estou falando!
- Olhando pra mim.... Acho que agora não somos tão iguais!
- Por que está falando isso Maria?
- Mariá, somos todos mortais?
- (silêncio)...
- Somos?

Foi então que Mariá, com acento no A, silenciou; e pela primeira vez, chorou.


- Escuta Maria, talvez ninguém entenda o que passamos ou sinta o que vivemos nesses dias!
- O que eu não entendo é se minha vida realmente foi diferente da que salvei!
- (silêncio) Sim Maria, somos mortais!
- Não tivemos tempo para descobrir tantas outras coisas, não é? Mas fico feliz por fazer parte de você agora Mariá!
- Agora somos uma Maria, como sempre deveria ter sido!
- Gêmeas! 
- Sim, gemeas.


Na manhã seguinte...


Maria partiu ao amanhecer com o seu novo vestido azul. Deixou para trás uma parte de si. Não levou nenhum documento, a não ser um pequeno espelho - no qual reconheceu o curto tempo de vida que lhe restava. De cabelos soltos e pés descalsos ela sentiu um estranho vazio no seu corpo, que logo foi preenchido pelas primeiras estrelas que surgiram no céu.

18 novembro, 2010

ESPERANÇA VERMELHO


Nicoletta Cecolli
Ela entrou no hospital com uma leve dor no peito e saiu surpresa com a pequena semente que havia sido encontrada na sua medula. Em casa, abriu o antigo baú e pegou sua velha máquina fotográfica com as lentes já mofadas. Com o pouco dinheiro que lhe restava comprou um peixinho vermelho e o chamou de Esperança. Ela também arrancou as cortinas cinza e convidou o sol para morar na sua casa. Na semana seguinte, inevitavelmente, voltou ao hospital, dessa vez para ser melhor retratada. Deitada, de olhos fechados, naquele estranho aparelho, viu a vida passar diante dos seus olhos, como um filme em preto e branco. Ainda de olhos bem fechado, ela desejou; desejou que seu retrato saísse bem bonito. E assim foi feito. Fotografaram-lhe a alma. Realmente o retrato era bem bonito. Ela nunca tinha visto tantas cores. A pequena sementinha havia se transformado em um lindo jardim. Com os olhos cheios d’água, confessou aos médicos nunca ter visto algo tão bonito. E diante do retrato, do seu retrato, ela se reconheceu como a pessoa mais feliz do mundo – afinal, nem todos tinham dentro de si um jardim raro como aquele. Para não esquecer aquele momento, tirou de dentro da bolsa a velha máquina e fotografou a primeira coisa que viu: a sua janela com um pequeno ponto preto próximo ao vidro. A partir daquele dia, além de alimentar Esperança, passou a regar todos os dias as suas flores com fortes doses de uma espécie de vitamina. No início, ficava tonta com o cheiro e até lhe escapava da boca um pouco de medo. Nesses dias nem o sol aparecia e ela ficava dentro da sua própria casa sonhando; sonhando em um dia conhecer o mar. Sua casa era um lugar adorável, onde jamais se sentia triste ou sozinha. Mas com a noite, chegava também a terrível limitação da sua existência. As lindas flores precisavam ser adubadas todos os dias. Quando ela se sentia cansada, deitava e lia pequenas estórias para alegrar Esperança. Acordava todos os dias cedo e saia para fotografar. Mesmo com a máquina com mofo nas lentes, ela não desanimava: fotografava tudo o que lhe trazia felicidade. Em uma tarde quente de domingo, fotografou uma bola azul sobre o telhado, uma boneca de pano sobre o lindo gramado verde e uma senhorinha, sorridente, em uma pequena casa de madeira desbotada. Esperou meses, até conseguir dinheiro suficiente para revelar suas novas fotos – teve que para isso deixar de alimentar Esperança e também de comprar as vitaminas para suas flores. Com as fotos reveladas nas mãos, entrou felicíssima em casa para abrir o envelope juntamente com o peixinho Esperança. Seu entusiasmo logo se converteu em um grande retrato escuro. Esperança havia saltado da redoma de vidro e caído sobre a mesinha com os grandes olhos voltados para a janela. Provavelmente nem sentiu o ar lhe faltar, levando-o a morte. Ela, outra vez com os olhos cheios d’água, não se deixou abater – usou cada lágrima para regar seu jardim. Com as fotos nas mãos, relembrou em voz alta cada fato registrado, em vão, para Esperança. Entre as fotos, algumas desfocadas e outras com lindos efeitos causados pelo mofo, conseguiu identificar o pequeno ponto preto na janela – para o qual Esperança olhava – era um pequeno casulo. Com o calor que havia feito, certamente o casulo havia se transformado em uma linda borboleta. Deduziu que Esperança havia desejado o mesmo – libertar-se da sua pequena redoma de vidro, para alçar voos mais altos. Comovida, ainda reconheceu na última foto, através dos efeitos causados pelo mofo, o seu próprio retrato – a velha senhorinha, nos seus mais de cem anos, sorridente na janela. Durante aquela mesma tarde ela enterrou Esperança – era tão pequeno fora da água!
- Um peixinho tão pequeno e tão corajoso! – Pensou.
Na manhã seguinte, ela fez as suas malas, abriu a porta e cumprimentou o sol:
- Espero que alimente minhas flores, pois tenho uma vida inteira pela frente – Sorriu e partiu rumo ao mar.

16 novembro, 2010

DESTINO DE LIBÉLULAS

Munieca
Era primavera. Ela acordou com o som de um leve bater de asas vindo do banheiro. Surpresa, deparou-se com um pequeno inseto colorido com grandes asas transparentes, dentro do vaso sanitário. Comovida, procurou rapidamente salvá-lo do seu terrível destino. O lindo e delicado inseto estava preso na imundície dentro do vaso. Ela correu até a cozinha e pegou uma colher para resgatá-lo, porém, deparou-se com o marido prestes a acionar a descarga:
- Mas que porcaria é essa no meu vaso? O que veio fazer com essa colher aqui no banheiro mulher? Vai comer o quê? - E acionou a descarga.
Ela, emudecida, viu a água suja envolver o pequeno inseto. Sentiu como se cada lágrima sua se esvaísse ralo a baixo. Foi somente no inverno que esqueceu do triste fato.
Passou a fechar a tampa do vaso para evitar aquelas "pequenas desgraças". Sentada sobre a tampa do vaso, sonhava. Trancada, dentro do banheiro úmido e sujo, sonhava com uma vida nova.
- Se eu pudesse voar, jamais pousaria em um vaso como esse!
E era com os socos e berros do marido contra a porta que ela acordava:
- O que tá salvando hoje aí dentro? Não vê que a vida dessas porcarias não valem nada?
Concluiu que precisava de uma banheira, como aquelas de novela para se limpar. O marido não entendia o fascínio da pobre mulher por um negócio tão fora de propósito. Viviam em uma casa modesta com janelas quebradas e frestas indiscretas.
Ele era açougueiro em um mercadinho de esquina. Passava os dias separando carne de ossos - sempre sujo de sangue. Ao chegar em casa era sempre recebido pela mulher com a mesma pergunta:
- Querido, comprou minha banheira?
Ele já não respondia mais. Ela, esperançosa, tornou a perguntar:
- Querido, a minha banheira branca? – Ela não suportava o silêncio como resposta!
Você bebeu outra vez? – Insistiu. Ele, impaciente, fechou a mão e com toda a força a lançou contra aquele maldito sonho. Ela, atordoada com o soco, tentou não chorar como das outras vezes. Suportou a dor em silêncio – sentiu que dessa vez o golpe havia lhe entortado até a alma. Ele então viu o sangue escorrer pelo seu avental.
- Esses animais miseráveis, se pelo menos tivessem alma não sangrariam! - Resmungou.
Ele, como sempre, concluiu que o sangue era dos animais destroçados no açougue.
- Preciso do avental limpo. Sonhos não alimentam ninguém!
Ela chorou – o suficiente para encher a sua desejada banheira. E pela primeira vez, não sabe se em sonho ou em morte, bateu suas asas:
- Eu não sou um inseto preso na sua sujeira! Eu quero uma banheira branca e limpa!
Sentindo-se desafiado, ele fechou a mão com mais força, mas exitou - viu refletido nos olhos dela o seu próprio destino. Rápida como uma libélula, alcançou uma escova de dentes e a cravou naquele olho que a julgava – um golpe certeiro naquele terrível olho direito. Ele, vermelho, de sangue e álcool, cambaleou para cima dela. Como um boi no matadouro caiu sobre o velho tapete do banheiro. Ela, com suas próprias asas sujas voou até o quarto e desmaiou sobre a cama.
Ficou lá desfalecida – e não sonhou. Talvez porque nem mesmo a maior banheira da face da terra daria conta de lavar tanta sujeira.
Ela só acordou com um barulho vindo do banheiro. Correu o mais rápido que pode, na esperança de salvar um pobre inseto, no entanto, deparou-se com um animal agonizando. Ele estava caído sobre o seu próprio sangue, e como havia aprendido com o marido, ignorou, afinal, se tivesse alma não sangraria.
O pobre animal estava com uma escova de dentes cravada no olho. Ela aproximou-se e com um pontapé contra a escova, cravando-a até as cerdas dentro daquele olho direito, o libertou do seu doloroso destino. Por um momento pensou em se desfazer do corpo dentro do vaso sanitário, mas percebeu que era preciso separar a carne dos ossos – era impossível, pois não havia lavado o avental.
Ao deparar-se no espelho não se reconheceu – quem era aquela? No que havia se transformado? Com suas últimas forças, empacotou o corpo com umas velhas folhas de jornal, como faziam no açougue, e enterrou no quintal. Daquele dia em diante seria vegetariana!
Ao final do dia sua boca ainda sangrava e o corpo tremia. Cansada, na alma, jogou-se sobre a cama e abraçou o seu lindo ursinho - presente dos tempos em que o amor ainda fazia sentido. Deitada, adormeceu e finalmente voltou a sonhar com a sua linda banheira branca. E lá, sobre a cama, foi outra vez interrompida:
- Acorda vagabunda, precisam de você no banheiro! – Era o lindo o ursinho professando a sua sina. Assustada, jogou o urso, que a olhou com aqueles olhos de açougueiro. Foi então que ouviu o som de um leve bater de asas vindo do banheiro. Correu até lá e deparou-se com outro pequeno inseto colorido dentro do vaso sanitário - uma linda libélula. Comovida, procurou rapidamente salvá-la do seu terrível destino. O delicado inseto estava preso numa sujeira ainda maior dentro do triste vaso. Ela correu até a cozinha, pegou uma colher para resgatá-lo, mas fatalmente escorregou no sangue pelo chão do banheiro e caiu sobre o vaso acionando a descarga. Mais uma vez viu o pobre inseto ir por água a baixo. Comovida se lançou de corpo e alma para dentro do vaso, no desejo de salvá-lo, e no meio de toda a sujeira, afogou-se. E nas profundezas ainda pode ouvir o lindo ursinho gritar do quarto:
- Não vê que a vida dessas porcarias não valem nada? 

08 novembro, 2010

O ÚLTIMO ANOITECER


John Everett Millais
Quando perceberam já estavam juntos. Ele era grande e ela pequena. Ele colecionava coisas e ela se desfazia delas. Ele adorava lembrar e ela preferia o que estava por vir. A vida até certo ponto parecia ter sentido – um sentido inventado. E do dia para noite, se deram conta de que não havia mais o que dizer. Ele continuou colecionando coisas; em silêncio. Ela passou a se desfazer do passado. Ele era magro e ela tinha profundas olheiras. Ele adoeceu da alma e ela do estômago. Antes do anoitecer, eles eram jovens e bonitos. Ele, outrora, colecionava histórias como herói e ela como promissora amante e mãe. Tiveram apenas uma filha.
- Ela se chamará Ofélia, sim, Ofélia como em Shakespeare! - Dizia a mãe.
Obcecada por limpeza, dava tantos banhos na menina que chegou a afogá-la na banheira. Mas não foi intencional, foi um descuido, talvez uma tragédia, obra do destino. Quando eles próprios se apresentavam, quando ainda saiam de casa, diziam que jamais tiveram filhos – por opção:
- Oras, pra que tê-los para logo querer se livrar deles? – Diziam os dois!
Havia uma estranha ligação entre eles - algo que os olhos revelavam. Após o lamentável incidente, passaram a dormir em quartos separados. Ele desconhecia o quarto dela e ela se quer sabia a cor das paredes do quarto dele. Viviam em um mundo insólito. Obcecada por limpeza, jogou todos os móveis do seu quarto fora, assim não acumulariam poeira. Ele, obcecado em colecionar coisas, transformou o seu quarto em um verdadeiro deposito de pequenas lembranças. O quarto da menina foi transformado em uma linda estufa de flores. O amor pelas flores era a única coisa que compartilhavam - em segredo. Nas primeiras estações em que viveram, assim que se conheceram, um completava o outro. Não se sabe quando, mas mesmo vivendo na mesma casa, ele deixou de falar e ela se esqueceu de ouvi-lo. Sentavam para o café da manhã um de frente para o outro em mesas separadas; ele se alimentava vagarosamente do passado e ela, insatisfeita, procurava na geladeira as delícias do futuro. O presente era simplesmente insosso. Na TV assistiam as mais belas histórias de amor - e eles não as reconheciam nem mesmo na ficção.
- O amor é uma patologia - afirmava ele. A cada dia aprendia mais e mais sobre um mundo repleto de lembranças e silêncio. A cada dia, ela sentia cada vez mais o desejo de aventura-se, e conhecer outro mundo: um mundo de águas límpidas e frescas. Quando ele dormia, sonhava com colecionar coisas até tornar-se parte delas. Ela não sonhava. Pelos corredores da casa passavam um através do outro, como fantasmas de velhos contos de fadas. O calendário desbotou-se e até o relógio na parede parou de tédio e cansaço. Os retratados da casa haviam desaparecido juntamente com todas as lembranças. Foi então que chegou inevitavelmente o anoitecer, mais intenso e escuro - conhecido nas antigas histórias como o “último anoitecer”. E finalmente, ao anoitecer, sentiram fome, mas ela não encontrou na geladeira as delícias do futuro e ele as apetitosas lembranças do passado. Insatisfeito, ele voltou para o quarto com alguns botões coloridos de roupa infantil e os depositou sobre uma montanha de outras pequenos objetos meticulosamente sobrepostos. Percebeu que o enorme amontoado de coisas desabaria com o menor movimento na casa. Era preciso ter cuidado com obras tão delicadas! Lá fora, depois de anos, ele ouviu um barulho; era o portão. Esgueirando-se entre o amontoado de coisas chegou até a janela, e lá de cima viu o portão entreaberto; sob a luz da lua que já brilhava no céu avistou alguém que o olhava também. Abismado, reconheceu, apesar da distância, aqueles olhos. Eram os olhos que outrora foram as estrelas da sua noite! Ele, olhando-a através da janela, e ela, ofegante no portão, reconheceram-se no mesmo espaço e tempo. Nas mãos ela carregava uma coroa de flores. Do portão, tentou acenar - e não conseguiu. Ele pegou a primeira coisa que encontrou - um espelho - tentou posicioná-lo sob a luz da lua para lhe fazer um sinal; mas também não conseguiu. Sozinha, olhando para a escuridão, ela finalmente tomou coragem e aventurou-se em um novo mundo. Da janela, em silêncio, ele a acompanhou com os olhos cheios d’água. Sentiu-a se afastar cada vez mais, correndo, em direção ao salgueiro que refletia nas margens cristalina sua copa acinzentada. E para lá ele a viu partir carregando nas mãos uma coroa de margaridas, urtigas e cravos. Ela, repleta de sentimentos tão estranhos, tentou pendurar a coroa nos galhos inclinados, quando um dos ramos invejosos quebrou, lançando na água chorosa a coroa e a ela própria. Seu vestido se abriu, sustentando-a por algum tempo, enquanto ela cantava antigos trechos de canções de ninar, ocultando a consciência da desgraça, como criatura nascida e feita para aquele momento. Muito tempo, porém, não demorou, para que o vestido se tornasse pesado de tanta água e que seus cantares levassem a infeliz para a morte lamacenta. Ele, comovido com tal visão, tentou sair do quarto, correndo pelo corredor estreito, entre suas coleções; que inevitavelmente desabaram, soterrando-o completamente. Tombado pelo peso, se reconheceu como parte de cada coisa; todas lembranças. No entanto, ao deparar-se com o espelho, não se reconheceu na imagem refletida. A lua revelou-se imponente no céu, sua luz refletiu nas águas cristalinas do rio, iluminou a pequena estufa e fez florescer os lindos botões de flores do último anoitecer.

Para ler ao som de I Loved You Once de Patrick Doyle
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