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Munieca |
Era primavera. Ela acordou com o som de um leve bater de asas vindo do
banheiro. Surpresa, deparou-se com um pequeno inseto colorido com
grandes asas transparentes, dentro do vaso sanitário. Comovida,
procurou rapidamente salvá-lo do seu terrível destino. O lindo e
delicado inseto estava preso na imundície dentro do vaso. Ela correu
até a cozinha e pegou uma colher para resgatá-lo, porém,
deparou-se com o marido prestes a acionar a descarga:
-
Mas que porcaria é essa no meu vaso? O que veio fazer com essa
colher aqui no banheiro mulher? Vai comer o quê? - E acionou a
descarga.
Ela,
emudecida, viu a água suja envolver o pequeno inseto. Sentiu como se
cada lágrima sua se esvaísse ralo a baixo. Foi somente no inverno
que esqueceu do triste fato.
Passou
a fechar a tampa do vaso para evitar aquelas "pequenas
desgraças". Sentada sobre a tampa do vaso, sonhava. Trancada,
dentro do banheiro úmido e sujo, sonhava com uma vida nova.
-
Se eu pudesse voar, jamais pousaria em um vaso como esse!
E
era com os socos e berros do marido contra a porta que ela acordava:
-
O que tá salvando hoje aí dentro? Não vê que a vida dessas
porcarias não valem nada?
Concluiu
que precisava de uma banheira, como aquelas de novela para se limpar.
O marido não entendia o fascínio da pobre mulher por um negócio
tão fora de propósito. Viviam em uma casa modesta com janelas
quebradas e frestas indiscretas.
Ele
era açougueiro em um mercadinho de esquina. Passava os dias
separando carne de ossos - sempre sujo de sangue. Ao chegar em casa
era sempre recebido pela mulher com a mesma pergunta:
-
Querido, comprou minha banheira?
Ele
já não respondia mais. Ela, esperançosa, tornou a perguntar:
-
Querido, a minha banheira branca? – Ela não suportava o silêncio
como resposta!
– Você
bebeu outra vez? – Insistiu. Ele, impaciente, fechou a mão e com
toda a força a lançou contra aquele maldito sonho. Ela, atordoada
com o soco, tentou não chorar como das outras vezes. Suportou a dor
em silêncio – sentiu que dessa vez o golpe havia lhe entortado até
a alma. Ele então viu o sangue escorrer pelo seu avental.
-
Esses animais miseráveis, se pelo menos tivessem alma não
sangrariam! - Resmungou.
Ele,
como sempre, concluiu que o sangue era dos animais destroçados no
açougue.
-
Preciso do avental limpo. Sonhos não alimentam ninguém!
Ela
chorou – o suficiente para encher a sua desejada banheira. E pela
primeira vez, não sabe se em sonho ou em morte, bateu suas asas:
-
Eu não sou um inseto preso na sua sujeira! Eu quero uma banheira
branca e limpa!
Sentindo-se
desafiado, ele fechou a mão com mais força, mas exitou - viu
refletido nos olhos dela o seu próprio destino. Rápida como uma
libélula, alcançou uma escova de dentes e a cravou naquele olho que
a julgava – um golpe certeiro naquele terrível olho direito. Ele,
vermelho, de sangue e álcool, cambaleou para cima dela. Como um boi
no matadouro caiu sobre o velho tapete do banheiro. Ela, com suas
próprias asas sujas voou até o quarto e desmaiou sobre a cama.
Ficou
lá desfalecida – e não sonhou. Talvez porque nem mesmo a maior
banheira da face da terra daria conta de lavar tanta sujeira.
Ela
só acordou com um barulho vindo do banheiro. Correu o mais rápido
que pode, na esperança de salvar um pobre inseto, no entanto,
deparou-se com um animal agonizando. Ele estava caído sobre o seu
próprio sangue, e como havia aprendido com o marido, ignorou,
afinal, se tivesse alma não sangraria.
O
pobre animal estava com uma escova de dentes cravada no olho. Ela
aproximou-se e com um pontapé contra a escova, cravando-a até as
cerdas dentro daquele olho direito, o libertou do seu doloroso
destino. Por um momento pensou em se desfazer do corpo dentro do vaso
sanitário, mas percebeu que era preciso separar a carne dos ossos –
era impossível, pois não havia lavado o avental.
Ao
deparar-se no espelho não se reconheceu – quem era aquela? No que
havia se transformado? Com suas últimas forças, empacotou o corpo
com umas velhas folhas de jornal, como faziam no açougue, e enterrou
no quintal. Daquele dia em diante seria vegetariana!
Ao
final do dia sua boca ainda sangrava e o corpo tremia. Cansada, na
alma, jogou-se sobre a cama e abraçou o seu lindo ursinho - presente
dos tempos em que o amor ainda fazia sentido. Deitada, adormeceu e
finalmente voltou a sonhar com a sua linda banheira branca. E lá,
sobre a cama, foi outra vez interrompida:
-
Acorda vagabunda, precisam de você no banheiro! – Era o lindo o
ursinho professando a sua sina. Assustada, jogou o urso, que a olhou
com aqueles olhos de açougueiro. Foi então que ouviu o som de um
leve bater de asas vindo do banheiro. Correu até lá e deparou-se
com outro pequeno inseto colorido dentro do vaso sanitário - uma
linda libélula. Comovida, procurou rapidamente salvá-la do seu
terrível destino. O delicado inseto estava preso numa sujeira ainda
maior dentro do triste vaso. Ela correu até a cozinha, pegou uma
colher para resgatá-lo, mas fatalmente escorregou no sangue pelo
chão do banheiro e caiu sobre o vaso acionando a descarga. Mais uma
vez viu o pobre inseto ir por água a baixo. Comovida se lançou de
corpo e alma para dentro do vaso, no desejo de salvá-lo, e no meio
de toda a sujeira, afogou-se. E nas profundezas ainda pode ouvir o
lindo ursinho gritar do quarto:
-
Não vê que a vida dessas porcarias não valem nada?
Comentários
Texto ácido e profundo! Como sempre!
Abçs!
Uma viagem ao desconhecido do ser que habita cada um de nós.
Sonhos tentando ganhar asas.
Pesadelos tentando se libertar de sua triste sina.
Sou uma apaixonada pela peça Jekyll & Hyde justamente por mostrar esse contraponto, que tão bem delineado vejo aqui.
Como bem disse o Franck, um texto ácido. E ímpar.
Beijo grande
PS. Desculpe se viajo nos comentários. É sempre o que acontece quando gosto do que leio.
Vi você no Blog de algum amigo, não me lembro quem. Agora, vejo tua foto no mural do meu Blog. Vim dar uma olhada.
Gostei do texto! Não sei dizer em que ponto ele me prendeu, mas isso não importa, não é? O que importa é que li sem parar, até o final e fiquei com sensação boa, sensação de que devemos insistir em nossos sonhos, por mais tolos possam ser e também gostei da mensagem "cuidado com quem tu mexes!". Uma boa história!
Um abraço!
P.S.: vou segui-lo, quero ler as outras histórias.
Abraços.
Bjos
Pretendo voltar com calma aqui, com tempo para ler outros posts.
Quando li a palavra "insosso" em teu texto, eu me lembrei do meu poema. O poema surgiu somente porque eu escrevi para uma amiga: "o dia aqui está insosso". Acabei de escrever isso lá, no meu Blog, porque os amigos ficaram inquietos diante das interpretações.
Escrevi a palavra e outras vieram em coro, juntinhas, mania que eu tenho.
Prazer em conhecê-lo! Seja bem-vindo em minhas casas.
Um abraço!
incrível
amo-lhe
Meiruska