ESPERANÇA VERMELHO


Nicoletta Cecolli
Ela entrou no hospital com uma leve dor no peito e saiu surpresa com a pequena semente que havia sido encontrada na sua medula. Em casa, abriu o antigo baú e pegou sua velha máquina fotográfica com as lentes já mofadas. Com o pouco dinheiro que lhe restava comprou um peixinho vermelho e o chamou de Esperança. Ela também arrancou as cortinas cinza e convidou o sol para morar na sua casa. Na semana seguinte, inevitavelmente, voltou ao hospital, dessa vez para ser melhor retratada. Deitada, de olhos fechados, naquele estranho aparelho, viu a vida passar diante dos seus olhos, como um filme em preto e branco. Ainda de olhos bem fechado, ela desejou; desejou que seu retrato saísse bem bonito. E assim foi feito. Fotografaram-lhe a alma. Realmente o retrato era bem bonito. Ela nunca tinha visto tantas cores. A pequena sementinha havia se transformado em um lindo jardim. Com os olhos cheios d’água, confessou aos médicos nunca ter visto algo tão bonito. E diante do retrato, do seu retrato, ela se reconheceu como a pessoa mais feliz do mundo – afinal, nem todos tinham dentro de si um jardim raro como aquele. Para não esquecer aquele momento, tirou de dentro da bolsa a velha máquina e fotografou a primeira coisa que viu: a sua janela com um pequeno ponto preto próximo ao vidro. A partir daquele dia, além de alimentar Esperança, passou a regar todos os dias as suas flores com fortes doses de uma espécie de vitamina. No início, ficava tonta com o cheiro e até lhe escapava da boca um pouco de medo. Nesses dias nem o sol aparecia e ela ficava dentro da sua própria casa sonhando; sonhando em um dia conhecer o mar. Sua casa era um lugar adorável, onde jamais se sentia triste ou sozinha. Mas com a noite, chegava também a terrível limitação da sua existência. As lindas flores precisavam ser adubadas todos os dias. Quando ela se sentia cansada, deitava e lia pequenas estórias para alegrar Esperança. Acordava todos os dias cedo e saia para fotografar. Mesmo com a máquina com mofo nas lentes, ela não desanimava: fotografava tudo o que lhe trazia felicidade. Em uma tarde quente de domingo, fotografou uma bola azul sobre o telhado, uma boneca de pano sobre o lindo gramado verde e uma senhorinha, sorridente, em uma pequena casa de madeira desbotada. Esperou meses, até conseguir dinheiro suficiente para revelar suas novas fotos – teve que para isso deixar de alimentar Esperança e também de comprar as vitaminas para suas flores. Com as fotos reveladas nas mãos, entrou felicíssima em casa para abrir o envelope juntamente com o peixinho Esperança. Seu entusiasmo logo se converteu em um grande retrato escuro. Esperança havia saltado da redoma de vidro e caído sobre a mesinha com os grandes olhos voltados para a janela. Provavelmente nem sentiu o ar lhe faltar, levando-o a morte. Ela, outra vez com os olhos cheios d’água, não se deixou abater – usou cada lágrima para regar seu jardim. Com as fotos nas mãos, relembrou em voz alta cada fato registrado, em vão, para Esperança. Entre as fotos, algumas desfocadas e outras com lindos efeitos causados pelo mofo, conseguiu identificar o pequeno ponto preto na janela – para o qual Esperança olhava – era um pequeno casulo. Com o calor que havia feito, certamente o casulo havia se transformado em uma linda borboleta. Deduziu que Esperança havia desejado o mesmo – libertar-se da sua pequena redoma de vidro, para alçar voos mais altos. Comovida, ainda reconheceu na última foto, através dos efeitos causados pelo mofo, o seu próprio retrato – a velha senhorinha, nos seus mais de cem anos, sorridente na janela. Durante aquela mesma tarde ela enterrou Esperança – era tão pequeno fora da água!
- Um peixinho tão pequeno e tão corajoso! – Pensou.
Na manhã seguinte, ela fez as suas malas, abriu a porta e cumprimentou o sol:
- Espero que alimente minhas flores, pois tenho uma vida inteira pela frente – Sorriu e partiu rumo ao mar.

Comentários

Regina Laura disse…
Emerson, incrível sua capacidade de retratar a beleza da dor e a dor da beleza...
Tão inseparáveis...
Lindo!
Beijo grande
Nuss... Gostaria muito de ter esse poder na escrita de dramatizar a simplicidade do cotidiano. Parabéns Emerson pelo seu blog psicodélico.
Vivian disse…
...maravilha de post!

vejo neste texto a oportunidade
que existe para nossas escolhas
diante da vida.

ser feliz...ou...

bjbj
Guará Matos disse…
Menino articulado esse Emerson, gente!
Mais uma jóia escrita.
Abraços.
____
pinta "lá po casa", a pinga é da boa e o torresmo é do bom.
Bruno disse…
Lindo ... sabes que representou, lembrou muita coisa ... muito lindo ... beijo grande do seu super fã!!!
Sandra Botelho disse…
Poxa...
Voc~e a cada texto parece entrar na alma humana;
Tantas vezes transformamos nossa vida em um aquario.
Não temos coragem de pular a janela, de ultrapassar limites. de correr em outra direção.
Talvez o medo do que está alem dos nossos olhos, ou de gostar e não querer mais voltar.
Sei lá de qualquer forma. Ficamos prisioneiros de uma vida que nem sempre é a que desejamos pra nós.
A peixinha representa bem aquele que tem ousadia pra seguir adiante, pra ultrapassar seus limites, correr atrás de seus sonhos.
Que bom que ela acordou e foi viver...
Bjos achocolatados
Lua Nova disse…
To besta, minino! Já li 3 vezes e a cada vez gosto mais. Quantos anos vc tem...? 100... 120...? com certeza tua alma tem. Me lembrou textos de Saint Exupery...
Muito lindo, comovente e muito, muito bem escrito.
Te convido a conhecer meu blog e saborear uma mousse de chocolate comigo.
Beijokas e um gostoso domingo pra vc.
Seguindo...

PC: continuo aqui para ler outros textos.
Zeka Viola disse…
muito bom, lírico, poético e pleno de emoção!
Zeka Viola disse…
volto com mais tempo para apreciar todo o conteúdo.
dja disse…
ola, lindo seus textos, to adorando tudo aqui, desde já te sigo, bjinhoss e ótima semana.
Olá, Emerson.

Passando para lhe desejar um 2011 de muita paz e alegria. Que seja um ano de grandes realizações pra vc!

Abraço :)
MAILSON FURTADO disse…
Belo post!!!

Maravilhoso seu espaço...

VISITE, acompanhe e conheça um pouco de meu trabalho...


IMPROVISOS de MAILSON FURTADO...

http://mailsonfurtado.blogspot.com

Grato desde já!
Fiquei tão comovido de saber que esse lugar existe: o Dramascópio, dessa pessoa que escreve como quem pinta, desejando partilhar o que só é possível conceber no mundo onírico, que cá dentro todos trazemos e por isso mesmo, sim, é possível compreender sua mensagem. É claro que para tanto é preciso exercitar a sensibilidade. Mas artistas como você nos ajudam e muito nessa mesma tarefa! Por isso mesmo, quero lhe dizer muito obrigado!
Rúbia disse…
olá!Lindo blog!!!! parabens... abraço
Amin disse…
Very interesting....