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Parkeharrison |
A
diabetes estava em 500mg/dl mas ela queria cada vez mais açúcar.
Também tinha compulsão por paredes, sim, ouvir por detrás das
paredes lhe dava outro inexplicável prazer! Considerava que sua vida
era reclusa e a dos vizinhos pública. Só saia de casa através das
redes sociais da internet - tinha um perfil falso com sua própria
foto. Adorava ser fotografada. Tinha pavor de banheira, calcinha
pendurada e de torneira pingando. Ah, bom mesmo, era pressionar o
copo contra a parede – como se fosse preciso – para ouvir a
vizinha gritar:
-
Aí que vontade de morrer! – E concluía a vizinha: – Querido, o
que vai querer para o jantar?
Envolta
em uma camisola vermelha de bolas amarelas, ficava escandalizada com
as coisas que a vizinha falava. Para ela era inconcebível existir
alguém com aquelas ideias! Afinal, a vida era tão boa! Era um
sacrilégio falar aquele tipo de coisa! Onde já se viu perguntar: -
“querido, o que vai querer para o jantar?” - pensava. Tem
que comer o que estiver na mesa e pronto! - Ela não cozinhava porque
achava muito complicado lidar com gás, porém, morrer era até mais
prático. Quem dera ser cremada!
-
Do que vale uma vida inteira sem sal e açúcar? Eu não quero uma
vida sem gosto! Prefiro viver menos, mas cercada de guloseimas!
Ainda
sobre a cama, com um copo cheio de suco de groselha e mel, tentava
enganar o estomago - havia sonhado a noite toda com trufas de
chocolate e carne seca. Já estava verde, não de fome, mas devido as
sopas instantâneas de couve e salsa que tomava para emagrecer.
Julgava que seu maior problema era o estômago, porque a cabeça era
sã e a alma pura. Seu único medo, pelo menos naquele dia, era
de morrer afogada! No entanto, dentro dela ainda havia espaço
para um misterioso desejo: ter um fogão. Mas não um fogão
qualquer! Ela queria um fogão preto, daqueles de novela. Sonhava com
uma cozinha moderna, como as de revista. Quando raramente
cozinhava, era para a semana toda. Tratava o marido e o filho como
criaturas "sem fundo", nunca estavam satisfeitos. Isso a
deprimia profundamente! Seria mais fácil se saíssem para comer
todos os dias! Ela tinha hábitos noturnos, cozinhava à noite –
fazia comida para durar a semana toda! Porém, o cheirinho da comida
fresca pela casa fazia com que todos devorassem tudo em poucos
minutos - terminavam as refeições ansiados e quase sempre
deprimidos! Nessas horas, até a vizinha deixava de lado os sórdidos
pensamentos mortais!
-
Aí querido... come, come! - Gritava a vizinha.
Felicidade
era passear no mercado, e com pouco dinheiro, faziam compras à
noite. O pobre marido até tentava instruí-la, mas sobre as compras
ela sempre retrucava categoricamente:
- Tem que ser à noite sim! Não quero que me vejam ser obrigada a entregar alguma mercadoria! - Explicava-se ao marido.
Certa vez, depois da meia noite, na sessão de doces, teve uma vertigem entre as inúmeras embalagens coloridas. Com o mercado vazio, pensou estar no paraíso. Pressentiu que morreria imediatamente se não tivesse na boca uma doçura! Pediu refrigerante ao improdutivo marido:
- Tem que ser à noite sim! Não quero que me vejam ser obrigada a entregar alguma mercadoria! - Explicava-se ao marido.
Certa vez, depois da meia noite, na sessão de doces, teve uma vertigem entre as inúmeras embalagens coloridas. Com o mercado vazio, pensou estar no paraíso. Pressentiu que morreria imediatamente se não tivesse na boca uma doçura! Pediu refrigerante ao improdutivo marido:
-
Refrigerante não pode! Beba água mulher, você precisa baixar a
diabetes! Beba bastante água se não morrerá aqui na frente de todo
mundo! Beba logo que eu não quero passar vergonha! - E finalizou o
seu discurso com firmeza: - Em casa quando estiver na cama eu te dou
refrigerante!
O
mundo havia acabado para ela:
-
Adeus fogão! – Lamentou.
Acordou
com um cheirinho de ovo frito com viradinho de feijão impregnado
pela casa. Fazia meses que não sabia o que era ir ao banheiro,
porém, não estava cheia nunca. Levantou ainda meio estonteada, foi
até a cozinha sorrateiramente como um rato e lá se deparou com a
visão dos seus sonhos: um lindo fogão cromado com detalhes em
preto, todo automatizado. Sua cozinha parecia ter se transformado
exatamente como aquelas de novela, com mármore grã-fino e tudo mais
devidamente ajeitado e asseado - era um presente! O fogão estava em
destaque, era enorme, cheio de botões e mecanismos. Ao lado do
fogão, o improdutivo marido e o filho traquinas a esperavam
solenemente ao lado da mesa posta. Ela não entendeu porque não
estavam tão felizes quanto ela... ainda mais com aquele cheirinho!
Viu que havia um lugar especial à mesa para ela. Estimulada pelo
aroma, não pensou duas vezes, sentou-se sem titubear. Então, o
fogão se abriu automaticamente e ela maravilhou-se com as enormes
chamas tremulantes que se projetaram para cima dela! Extasiada, até
tentou gritar de alegria:
–
Querido, o que vai ter para o
jantar?
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