![]() |
Nicoletta Ceccoli |
Ela nasceu analfabeta, mas logo se interessou pelas letras. Comia pouco, mas lia muito. Apesar das pouquíssimas refeições a base de sopas, ficava cada vez mais gorda. Em compensação sua alma não engordava nunca. Ser professora era um grande sonho, até pisar na sala de aula:
- Que linda flor! Apesar de estar um pouco murchinha ainda é muito linda. Quem fez a gentileza de trazer esse presentinho para a professora? – Perguntou ela aos pequeninos com os olhos cheios d’água.
- Ela já instava aí quando chegamo! – Responderam os anjinhos. Desde então passou a odiar. Passou a odiar as flores. Flores murchas passaram a povoar os seus pesadelos. Era só adormecer que os anjinhos surgiam sentados em carteiras aladas trazendo em mãos muitas flores murchas. Acordava toda suada e não dormia mais. Ser professora transformou-se num pesadelo.
A escola onde trabalhava ficava no alto de um lindo morro aonde só era possível se chegar de ônibus. Mas nem os ônibus chegavam mais. Carro ela não tinha, pois tinha medo de dirigir naquelas alturas. Os responsáveis não se preocupavam com o acesso à escola já que os alunos não faltavam. Com chuva ou sol lá estavam as crianças. Não se sabe se compareciam porque gostavam ou se eram obrigadas. Só havia uma certeza, para os pais era um refresco para a alma mandá-las para a escola. Alunos eram muitos e professores raros. Ia trabalhar de fusca azul. Chegava sentada no banco do carona aplaudida pelos aluninhos. Todas as suas amigas eram professoras e cada uma tinha um fusca de uma cor. Na verdade não existia salário naquelas alturas, e amiga, amiga mesmo, só tinha uma. Nas idas e vindas educacionais discutiam:
- O piolho suga a inteligência do cérebro! É comprovado! – Afirmou ela.
- Eles não sugam nada, eles só ficam no alto da cabeça para assistir a aula! – Completou a outra experiente educadora – que odiava ser chamada de "profi" e mais ainda de "tia".
Ambas tinham pavor de piolho. Trabalhavam de lenço listrado na cabeça e luvas de bolinhas. As bolinhas serviam para esconder a sujeira e a opção pelas listras não se sabe. Não usavam branco. O branco as deixava neurótica. Odiavam manchinhas e coisas afins.
A vida da pobrezinha era tão colorida quanto as suas aulas. Ela até tinha uma outra vida fora da escolinha. Chegou a arrumar um namorado que proporcionou grandes noites que a faziam suar descontroladamente. Mas não era suor de prazer, era de alteração do estado de nervos. Ele também era professor. Professor de ensino religioso. Ele quis ensiná-la a se ajoelhar e rezar. Ela aprendeu a controlar as fortes dores de estomago. Passou a comer menos ainda, mas não parava de crescer. Por outro lado a alma parecia estar definhando a cada novo pesadelo.
Voltando para casa com a amiga, pela primeira vez, contou com extrema felicidade:
- Fiz grandes conquistas com meus anjinhos, finalmente! Depois desses longos meses ensinando as letras, de todas elas, eles já conhecem... duas! O “P” e o “A”, “PA”.
- Querida, seus aluninhos já podem criar um texto!
- Você acha? – E ela tentou desenvolver o texto. – P. A. PA. PA? PAPA PAPA? PA PA PA! PA?
A amiga inconformada com a visão limitada da professorinha aproveitou para demonstrar o seu letramento!
- Querida, se os teus anjinhos só conhecem duas, os meus, por incrível que pareça, nesses dois anos que estou com eles, já conhecem três letrinhas. O "P", o "A" e o "C". PAC. PAC? PAC PAC? PAC PAC PAC. PAC?
Ela ficou abismada. Quanto tempo levaria para ensinar as vinte e tantas letrinhas do alfabeto, fora as combinações complexas, como o LH, o NH, o CH... O problema não era dos alunos, era do alfabeto. Ela mesma trocava o "J" pelo "G" e até pelo "H" algumas vezes. Não por falta de estudo, mas porque convivia com tantos erros que chegou a pensar que até seria ético praticar o incorreto.
Um dia, durante o banho, foi iluminada pelo manto divino da Montessori.
- Pra que aquele bendito anjinho vai aprender a escrever se o pai é analfabeto? E pra que ele vai aprender a ler em voz alta se a mãe é surda? – Pensava ela em voz alta.
Nua, no banheiro, passou a desenvolver outras coisas mais ousadas:
- Aí, calma, calma, quando entrar, vai entrar tudo de uma vez só! – Era assim que ela imaginava que todas aquelas letrinhas entrariam na cabecinha daqueles quarenta e dois anjinhos. Era só dar tempo ao tempo que eles logo despertariam para o mundo encantado das letrinhas amiguinhas.
Após chegar da escola, jogava religiosamente o lencinho listrado na privada. Na verdade a opçao por listras é porque emagrecia. Era um por dia de aula. Luvas recebia da própria escola. Ela ficava horas no banho. Não por causa dos piolhos, mas porque se sentia suja. Seu corpo cada vez maior era asseado, sua alma é que parecia estar cada vez mais suja. E não adiantava rezar. Rezar mesmo não rezava, pois tinha pavor desde que namorou o dito "religioso". Ele não saia da sua cabeça. Era como um piolho gordo e nutrido. Mas sua boca era inesquecível. Dos longos encontros que ela teve com ele, ou melhor, das longas missas, pelo menos uma coisa entrou bem no meio das suas idéias – e era impossível esquecer:
- Não é a matéria que morre, é a alma doente que mata o corpo! - E assim ela se lembrava daquela maldita boca a censurando.
Ela era temerosa. Amava todas todas as coisas, mas o amor de gente ela não conheceu. Só conheceu a paixão. A paixão pelas letras que se transformou em uma flor murcha.
E foi durante as esperadas férias, num domingo de sol e de céu azul que ela finalmente descansou. Descansou eternamente. Na verdade a pobrezinha morreu. Morreu de desgosto. Morreu de desgosto e alfabetizada. E foi lá no céu que ela encontrou, se encontrou com os anjinhos a esperando com um lindo lírio branco. Só que dessa vez a linda flor era realmente um presente para ela.
Comentários
Simplesmente magnífico...Parabéns!!!
Adorei!!!
Como diz Sandman:
De-me um punhado de terra, que lhes mostrarei o terror...kkkk
Você é Maravilhoso.....ri de chorar...
Você tem que lançar estes contos...
PARABÈNS!!
Ana Cristina
Felicidade é mais ou menos issso ai, e a professorinha foi feliz, pode ter certeza.
Agora o piolho foi terrível, loembro-me de minha mãe passando vinagre e pente fino nos meus finos e lisos cabelos.
(excelente conto)
abraços, até anGinho!
só vc esmo né amigo para falar de assuntos tão serios de uma maneira tão comica .... acho que esse conto foi meio auto biografico em algumas partes né ehehehheheh
bjux
Abraço do Jefhcardoso do http://jefhcardoso.blogspot.com
Passarei mais vezes por aqui.
Beijinhos a vc
Estarei sempre por aqui
Beijoss
>>Dani
Seguindo vc, nem teria como não seguir! Abçs!
Mtas vzs passo, pra me deleitar na leitura, sem deixar comentário, sempre com pressa!
Adoro seus contos e esse ta fantástico. Tragicômico e dinâmico.
Valeu!
Bj
Parabéns!!
Abraço!
Ronne
Parabéns!!
Abraço!
Ronne
quebram
a sua MONOTONIA
a cuspir
para CIMA
de nós...
...
a CHUVA
não é ÁCIDA,
ácida é a URINA
dos ANJOS...
PAR
Trofa - Portugal