PARA SEMPRE

Henri Cartier-Bresson
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Ela foi até o cais e lá parou. Malas feita, cabelo arrumado e um vestido verde amarrotado... Não sabia se era o entardecer ou o amanhecer. Dentro da mala, nada. Só restava a certeza de que agora era tarde. Foi a primeira vez que ela preferiu não lembrar. Assim não teria saudades. Não teria saudades de casa, não teria saudades de tudo... Em muitos momentos ela sentiu tanto a falta de alguém que o que mais quis foi tirar essa pessoa dos seus sonhos e abraçá-la.
Conta a história que quando ela nasceu, já era sabido o seu destino. Ela então se ocupou com laços de fita, caixas velhas de sapato, fotografias... Mas nunca esqueceu, mesmo sonhando.
Ela construiu sua casa azul. Teve seu jardim de girassóis vermelhos. Leu seus livros cor-de-rosa para meninas misturado com Dostoievski e Proust. Viu as crianças brincarem de amarelinha até o dia em que mataram umas as outras. Conheceu outras pessoas que amaram tão profundamente que esqueceram de si mesmas para sempre. Viu outras que foram infelizes e
nunca se deram conta disso.
Ela não foi a personagem de um livro que amou profundamente, muito menos foi infeliz depois do “e viveram felizes para sempre”. Tudo o que conheceu, o que sentiu, o que criou, coube em uma mala. Uma mala do tamanho da saudade.
- Quando eu ficar sozinha, estarei seguindo o destino
de todas as mulheres. - Pensava ela.
Dizem que ela nunca sofreu. Dizem também que ela nunca teve a terrível limitação de quem vive apenas do que é possível fazer sentido. Muito pelo contrário, ela quis uma verdade inventada.
A sua casa azul, os seus girassóis vermelhos, o seu laço de fita amarela, as suas fotos e o seu vestido verde foram o seu “viveram felizes para sempre” até o “era uma vez”.

Comentários

acho que sou um pouco essa mulher do vestido verde
na mala a saudade
ô saudadera dioda...
mas são esses momentos que nos fazem perceber o presente que uns ganham...eu percebo ele...e agradeço...não é todo mundo que tem tanta certeza de um caminho...nem todo mundo que tem uma força tão gigante em forma de vocação...muito menos que tenha os amigos que eu tenho...

adoro essa nossa comunicação secreta bloguiniana....coisa que só a gente tem

te amo. isso é pra sempre. cabe na minha mala. fica lá até o envelhecer...e quando eu já não tiver mais essa tal beleza que insistem em me atribuir...e for todas ruguinhas...haverá em mim o que realmente vale nessa vida...amores como você...amizades como a nossa....lembranças que não necessitam de tempo nem de renovações...relações que se fazem a distância...de qualquer forma..aí eu vou me lembrar do menino que vestia vermelho e fazia a entrega do oscar naquela aula de interpretação..e então a vida já terá valido a pena...e o nosso azilo...
Priscila Lopes disse…
Ah, que bonito! Um texto leve e gostoso de ler. Bom mesmo.

Apareça no Cinco Espinhos.

Ah... braços!
Lisa disse…
que deliciosa personagem: fisga sem apelar para a piedade, prende sem oprimir e se despede sem lastimar.
ou, quem sabe, isso tudo dito detrasprafrente?
prezo que dê continuidade à esse blog.
lembranças, Lisa
quel disse…
um dos mais belos que já li!
Cinara Santolim disse…
Oi Emerson, adorei este texto. Aliás, adorei o blog, ficou lindo, muito legal. Parabéns!
Suzi disse…
Outro dia passei ak mas não tive tempo de postar. So quero dizer q esse conto é uma parte de mim em palavras.. lindo!
Tâmara disse…
Estou maravilhada diante do encantamento de suas palavras.És o mestre em sua essência.Te admiro.Grande amigo.
La Vanu disse…
o bom de vir aqui é que dá pra ler de trás pra frente...