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24 janeiro, 2008

ONDE MORAM OS SONHOS?

Pericles Lavat
Estava depressiva, muito depressiva. Sentada no sofá a tarde inteira, assistiu a todos os programas da TV. Com o controle da TV estragado foi obrigada a permanecer presa, trancada, aprisionada em um único canal. A programação era a mesma de sempre: receitas deliciosas regadas a muita fofoca e dicas maneiras para emagrecer. Só saiu da frente da “caixa mágica” quando sentiu dor na barriga. E não foi uma dor qualquer não. Foi uma dor insuportável! Não era por causa da programação, mas sim de fome. Os mais intelectuais vão me desculpar, mas a fome da coitadinha não era “fome” de arte não! Era fome de comer um pão com mortandela, é... “mortandela” mesmo e com muita margarina e café preto com açúcar, mas muitooo açúcar. Saciada, nem pode se sentar na frente da TV para acompanhar o último capítulo daquela novela mexicana imperdível, que na verdade estava sendo reprisada pela décima segunda vez (e olha que os capítulos nem passavam na ordem correta!). Mas isso era o de menos... O importante era que ela estava entretida, saciada e um pouquinho mais feliz... ou pelo menos era o que parecia. Mas foi bem na hora em que Juan Carlos iria beijar Maria Mercedes Diniz Consuelo Santonella que aquela dor insuportável voltou a azucriná-la!
- Mas que merda! Acabei de comer aquela “mortandela” toda! – Esbravejou ela levantando-se do seu sofá xadrez. Chegando na sua asseada cozinha, tomou um copo d’água para ver se a fome ia embora (a sujeita havia aprendido esse truque no programa “Sou de Casa, Sou Feliz). E ela tomou água. Um gole, um copo cheio, uma garrafinha, depois meio galão de água e nada... Estava frustrada pela dica não ter funcionado com ela. Logo esqueceu desse pequeno infortúnio, pois uma pontada fortíssima a fez contrair os músculos da barriga e das pernas, levando-a as pressas para o puxadinho. É meu povo, não era fome nem de comida e muito menos de arte. Sentada lá no banheirinho improvisado e minúsculo, sentiu as paredes apertando-a contra o vaso. Então pensou:
- Aquele imprestável andou diminuindo esse banheiro! - Imprestável era uma referência direta e carinhosa ao seu marido. Bem, me desculpem mais uma vez os intelectuais, mas a coitadinha cagou, cagou.... Cagou tanto, mas tanto, que sentiu que as paredes do cubículo iam sufocá-la até a morte. Para distrair-se, tentou pensar em algo alegre, colorido e mais divertido. Estava cansada de se sentir deprimida. Subitamente veio uma idéia a sua mente.
- Dizem que dinheiro não trás felicidade, é? Pois seria muito melhor estar deprimida em Paris do que aqui empurrando as paredes desse banheiro! – Divagava ela nos seus afazeres. Por um momento ela concordou plenamente com essa idéia maravilhosa que tinha ouvido de uma ex-modelo magérrima que agora era uma atriz super-hiper conceituada que dava conselhos na TV.
Pois bem, divagando e pensando, que dá tudo na mesma coisa, o tempo passou. Passou tão rápido que a pegou com as calças nas mãos. E foi tudo muito rápido. O portão rangeu, a porta bateu e o maridão vestido num macacão azul chegou esfomeado dizendo:
- Cadê meu docinho? Cadê meu docinho? Cadê meu docinho? – É, enquanto ela não respondia, ele repetia a bendita frase sem parar!
Ela então finalmente respondeu e recebeu o grande amor da sua vida com um beijo “caliente” na boca e as mãos ainda suadas. Ligou a TV e colocou-o para ver a nova novela com ex-modelos magérrimas e se pos a esquentar a janta. É minha gente, ela não tinha ciúmes da TV, pois estava treinando "auto conhecimento" e "crescimento peossoal" naquele programa dos conselhos supimpas que passa na TV...
- Meu docinho, o controle não tá estragado não! Você que colocou as pilhas do lado errado. – Corrigiu ele o ato falho da sua linda mulher que por desventura e falta de tempo ainda não sabia ler.
E não é que nossa “Maria” foi pega de surpresa mais uma vez? O tempo passou mais uma vez tão rápido que ela nem se deu conta de que a novela já havia terminado, o marido comido e ela, mais uma vez, estava ali sentada na frente da TV fora do ar. É, e ainda depressiva, muito depressiva. Sabe o que ela fez? Fez como ensinaram na TV... assaltar! Resolveu então assaltar a geladeira. Foi então que descobriu: o que sentia não era dor, estava grávida. Ela sorriu. Depois daquela hora, daquela santa hora, ela aprendeu a por as pilhas no controle remoto, sentou-se à mesa com o marido, voltou a estudar e nunca mais se sentiu depressiva. Nunca mais.

7 comentários:

mARINA mONTEIRO disse...

ela viu outro mundo quando virou mãe...mas qual mundo o filho dela iria ver. agora lembrei que odeio os pseudo intelectuais...esses do texto que a gente tem que lembrar que sim, as pessoas têm fome real...que elas cagam...e tudo o mais...
hj eu não sei se quero ter filhos...o tempo todo eu não sei das coisas...será que eu tenho que saber?! às vezes eu tenho certezas, noutras dúvidas......mas deprimida eu nunca mais fiquei...não naquele nível...só pequenas crises....coisas de quem vive mesmo...e se atira.....me ensina amergulhar e não afogar o nariz??? eu sou claustrofóbica!!!!

Quel Janenê disse...

ei,
tem várias coisas que eu ainda quero fazer na vida.. várias.
uma delas é transformar teus textos/ contos em filmes nossos. curtas ou longas.. não importa. eu já tenho alguns praticamente decupados na minha mente. Com o cenário, as cores, a música. Um muito diferente do outro,. mas todos tão tão tão tão teus ( e um pouco meus quem sabe)
não sabia desse teu blog, li ele todinho, desde maio de 2006. Me emocionei e me diverti... tem coisas que só o Meco faz por você.
é bom estar perto de ti, mesmo que de longe.
te amo sempre.

obrigada por escrever.

Bruno disse...

Um texto melhor que o outro, seus textos me lembram tanta coisa boa, tanta coisa vivida e coisas que ainda quero ter o prazer de viver, vc é o melhor escritor do mundo do planeta da terra ... e eu seu fã numero 1 ... com certeza .... BEIJO!!!

PP disse...

Oiiiii ... passando por aqui para ver o que tem de novidade ... SAUDADE ... VEM LOGO !!! BEIJOS!!!

rafael disse...

É incrível como coisas simples da vida se tornam textos com um conteúdo, relevantemente, interessante.
É preciso estar atento a cada pequeno momento que a vida nos faz ter, para desenrolar em frases que realmente valem a pena serem lembradas.
Muito bom seu "ponto de vista" do mundo, mesmo que de forma fantasiosa.

Ur words are amazing!

Visitante disse...

De onde vem tudo isso... q divertido! diferenti

Anônimo disse...

LEGAL

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