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09 dezembro, 2016

CLASSE ECONÔMICA

Ela mal teve tempo de abrir os olhos e descobriu que havia nascido de um acidente.  Sim, de um acidente, um descuido, ou melhor, de um imprevisto. Nada foi planejado até aquele momento. Ela então decidiu que dali para frente tudo seria diferente. Se naquele lugar ela não era amada, certamente haveria, em alguma parte do mundo, um lugar no qual as coisas fossem diferentes. Um lugar onde não houvesse espaço para imprevistos. Ela sentiu um desejo inexplicável de desbravar o mundo. E assim, nasceu um sonho, o seu sonho. Já na pré-escola passou a se interessar por geografia e línguas. E antes mesmo de ser imunizada contra meningite, papilomavírus humano e mal humor, já falava fluentemente diversos idiomas, até mesmo o Rotokas, o Xhosa e o Tofa. Era preciso estar preparada, afinal de contas, imprevistos a deixavam muito, muito doente. Ela sabia que os sonhos custavam caro, então, era preciso trabalhar e economizar. Ainda muito jovem, passou a trabalhar 6 horas por dia. O resto do tempo passava estudando e planejando a melhor forma de conhecer outros ares, outros mundos. Assim que saiu da escola, passou a trabalhar 12 horas por dia. Era preciso poupar, afinal de contas, pagaria os juros de 0,1% da poupança com seu sangue. Era uma questão de investimento! Deixava de comer para guardar as miseras migalhas do vale alimentação. Sim, ela passava fome em prol do seu sonho. Durante toda a sua vida profissional, ela teve um único trabalho. Era considerada a melhor funcionária de uma renomada fábrica de lingerie. Contudo, nunca ganhou um aumento, ou se quer um obrigado, e muito menos teve o prazer de usar uma calcinha de renda produzida na própria empresa. Na hora do almoço organizava o roteiro da viagem que mudaria a sua vida.  Cada detalhe era repassado todos os minunciosamente. Do tamanho da mala às despesas com o cafezinho do aeroporto, nada escapava do seu elaborado e colorido organograma. Chegou a prever o clima dos 20 anos subsequentes a sua partida, que seria um dia após a sua aposentadoria, no dia 31 de dezembro, uma sexta-feira, às 6:28 da manhã. Seria um dia chuvoso, fresco, ideal para viajar. Usaria seu vestido verde, com suas sapatilhas vermelhas e, finalmente, se daria ao luxo de usar uma calcinha de renda, de renda francesa, da empresa concorrente, que segundo ela, eram as melhores. Como o planejado, o grandioso dia bateu a porta. Ela finalmente estava pronta e livre para viver o seu sonho. De malas feitas, cabelo arrumado e o vestido desbotado, já fora de moda, foi até o ponto de ônibus mais próximo. Precisamente às 6:28 viu despontar, em meio a estrada esburacada, o ônibus que a levaria até o aeroporto. Ela sentiu, pela primeira vez, que deixaria tudo para trás. O novo mundo a esperava. Um mundo no qual ela poderia ser finalmente amada. E como previsto, sentiu as primeiras gotas de chuva cair sobre seus cabelos brancos. As leves gotas tingiram os fios brancos de vermelho, que escorreram da fronte em direção ao coração. O tempo havia mudado. E sem se dar conta, que fora atingida pela roda do ônibus que havia se desprendido, viajou sem ao menos sair da frente da sua casa. A pesada roda de borracha atingiu com força o seu sonho, tingindo de sangue o seu bem mais precioso. Finalmente, quase tudo saiu como ela tinha previsto, exceto que o imprevisto é sempre a melhor parte da viagem.

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