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05 novembro, 2016

Maria & Mariá - II Versão

Irina Kotova
- Alô?
- Onde você está Maria?
- Sentada!
- Sentada?
- É, no ônibus!
- E onde você está?
- Na estrada!
- Sim, mas em que lugar?
- Não sei, tudo passa velozmente!
- Pergunta para alguém Maria!
- Não tem ninguém. Estou tonta! 
- E o motorista? Pergunta para o motorista!
- Ele trancou a porta, não dá!
- Faz tempo que você está viajando Maria?
- Não sei, eu dormi!
- Que horas você saiu? Olha no relógio!
- Eu não tenho!
- Olha aqui Maria, quando você chegar me procura! Estou te esperando.

Dias depois...


- Maria, por onde você andou? Até a polícia já está atrás de você!
- Eu me perdi!
- Mas como? O ônibus era direto!
- Acho que entrei no ônibus errado!
- E por que deixou de atender o celular que eu te mandei de presente?
- Acabou a bateria, então eu joguei fora!
- Maria, você precisa ser mais atenta! Onde está sua bolsa? Perdeu também?
- Eu não tenho!
- Um mulher sem bolsa? Onde já se viu isso Maria! Vamos pra casa, lá a gente conversa!

 No táxi...

- O que foi Maria?
- Para onde estamos indo?
- Para casa!
- Está me mandando embora?
- Não Maria, estamos indo para minha casa! (...) Toma, é para você não se atrasar mais!
- O que é isso?
- É um relógio mulher, nunca viu? De que mundo você veio?
- (silêncio).
- Desculpa Maria. (...) Pode deixar que eu guardo o seu novo relógio aqui.
- Você tem uma linda bolsa! – Sorriu.

Em casa...

- Me conta, roubaram suas coisas?
- (silêncio).
- Eu não gosto desse seu silêncio Maria! (...) Já sei, vamos comprar um vestido novinho para você!  Gosta de azul Maria? Olha como esse cai bem!
- É um espelho?
- É claro que é um espelho Maria! (...) E então, gostou do vestido ou não?
- Você é muito bonita!
- Vem aqui na frente do espelho Maria. Olha bem! Somos idênticas, não é?
- (silêncio).
- Gêmeas, é assim que se diz! Já viu duas pessoas tão idênticas quanto nós Maria?
- Eu não me lembro de ter visto um espelho antes!
- Não seja boba Maria. Olha pra mim, estou aqui para te ajudar!
- Mas foi você quem pediu minha ajuda.
- Graças a Fundação nos encontramos! Você fará parte de mim agora! Não é Maria?
- É lindo o espelho!

No hospital...

- Maria, se você quiser pode desistir!
- (silêncio).
- O que foi? O que está fazendo mulher?
- Aqui tem espelho?
- Não seja boba Maria, do que você está falando?
- Eu quero te mostrar uma coisa que eu descobri!
- Maria, fica! Você já é parte de mim!
- Então posso segurar a sua bolsa?
- Quando tudo isso terminar eu compro uma bolsa pra você! E um espelho. E até um vestido novinho!
- (silêncio).
- O que foi Maria? Está com medo?
- Como vai ser?
- Será como... dormir! Isso. Será como dormir.
- Então vai ser como sonhar?
- Sonhar? (...) Não sei Maria! Não sei!

Na sala de recuperação...


- Olha pra mim! Bem aqui, está vendo? Acho que agora não somos mais idênticas!
- Não diga isso Maria?
- Para onde vamos depois daqui?
- (Silêncio. E pela primeira vez, Mariá, com acento no A, chorou).

No dia seguinte...


Maria, com seu novo vestido azul, partiu ao amanhecer, deixando para trás uma parte de si. Na bolsa, apenas o pequeno espelho e o relógio, que passou a marcar as horas descompassadamente. De cabelos soltos e pés descalços, sentiu um estranho vazio, que logo foi preenchido com as primeiras estrelas do anoitecer.

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