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05 maio, 2013

A CASA DA CRISTALEIRA

Fred Calleti

A vida até que era boa, se não fosse a cristaleira sempre cheia de pó. Mas isso era apenas um detalhe. Um detalhe insignificante. A nova empregada era tão competente, que ela mesma limpava toda a cristaleira só para não aborrecê-la com coisinhas tão insignificante. Ela, definitivamente, não tinha nascido para mandar em estranhos! Ao longo dos anos desenvolveu uma ótima estratégia: mandava no marido! Todos os dias, antes dele sair para trabalhar, obrigava-o a instruir e inspecionar o serviço da empregada. Assim, todos os dias, antes e depois de um dia exaustivo de trabalho, o pobre homem repassava as dezenas de instruções para a empregada – todas descritas minunciosamente no “caderninho da faxina”. Enquanto ele orientava a empregada, ela saia para passear com a bebezinha e a cachorra pelo centro da cidade. Caminhava durante toda a manhã, na expectativa de chegar em casa e encontrar tudo conforme havia planejado. E para garantir que o dia fecharia com chave de ouro, obrigava o maridão a lhe trazer chocolates finíssimos – que eram guardados dentro da cristaleira. Como estava de regime, guardava os chocolates dentro de uma linda baixela de cristal - o local ideal para guardar aquelas delícias! Faltava perder apenas um quilo, para finalmente deliciar-se com todas aquelas guloseimas escondidas. As guloseimas eram o prêmio, caso a dieta da proteína desse certo. Sonho maior do que perder alguns quilos, era poder ver a cristaleira reluzindo. 
- Se as portas da cristaleira permanecerem sempre fechadas, a danada da poeira não entra! – Pensava. Porém, sempre ao chegar em casa, depois das longas caminhadas, encontrava a cristaleira com a porta entreaberta e repleta de poeira. E os chocolates? Restavam apenas as embalagens vazias. 
- Não acredito que aquela, aquela... devorou minhas preciosidades! A danada está com o paladar muito apurado! - Pensou. Ela precisava tomar uma decisão mais drástica. Concluiu que não bastava pedir para que o marido orientasse a empregada de como limpar a cristaleira, era preciso que ele também a proibisse, de uma vez por todas, de tocar nos seus chocolates. 
Ao anoitecer teve uma grande ideia. E assim, ela passou o resto do dia esperando ansiosamente o marido chegar. Era preciso contar-lhe o novo plano. Para que tudo corresse conforme havia arquitetado, chegou a presentear a empregada com uma dúzia de caixas de chocolate do mercado da esquina, e ainda lhe deu o resto da semana de folga. 
- Querido! Que bom que você chegou! Ah! Chocolates pra mim! Mas você é um doce mesmo. O que? Não, não tem janta! Sim, dei folga pra ela. Não, fica aí de pé! Olha o que eu escrevi aqui no seu “caderninho da faxina”! Então, o marido leu incrédulo:
“A partir de hoje a empregada estará sempre de folga enquanto houver chocolate na cristaleira!” - Ele, tristonho, retrucou:
- Querida, eu queria que apenas por um dia você me  tratasse como trata a empregada!
Ela, de costas, espanando meticulosamente a cristaleira, nem reparou os lábios do marido lambuzados do mais fino chocolate.

2 comentários:

Lisa disse...

Só para criar um contraste, vou postar aqui a versão comédia desse drama, escrita sob a ótica feminina da Sr. Rita Rudner: "I love being married. It's so great to find that one special person you want to annoy for the rest of your life."

Emilie S. disse...

Foi o que tinha notado: a mulher estava mais preocupada com outras coisas (chocolates? que mesquinha) do que com o próprio marido. e...sei lá, eu estava esperando que ela descobrisse que era o marido quem comia os chocolates. culpa minha, querer um plot twist nas histórias. estou desacostumada.
»» Emilie Escreve

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