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09 setembro, 2010

DIABETES

Parkeharrison

A diabetes estava em 500mg/dl mas ela queria cada vez mais açúcar. Também tinha compulsão por paredes, sim, ouvir por detrás das paredes lhe dava outro inexplicável prazer! Considerava que sua vida era reclusa e a dos vizinhos pública. Só saia de casa através das redes sociais da internet - tinha um perfil falso com sua própria foto. Adorava ser fotografada. Tinha pavor de banheira, calcinha pendurada e de torneira pingando. Ah, bom mesmo, era pressionar o copo contra a parede – como se fosse preciso – para ouvir a vizinha gritar:
- Aí que vontade de morrer! – E concluía a vizinha: – Querido, o que vai querer para o jantar?
Envolta em uma camisola vermelha de bolas amarelas, ficava escandalizada com as coisas que a vizinha falava. Para ela era inconcebível existir alguém com aquelas ideias! Afinal, a vida era tão boa! Era um sacrilégio falar aquele tipo de coisa! Onde já se viu perguntar: - “querido, o que vai querer para o jantar?” - pensava. Tem que comer o que estiver na mesa e pronto! - Ela não cozinhava porque achava muito complicado lidar com gás, porém, morrer era até mais prático. Quem dera ser cremada!
- Do que vale uma vida inteira sem sal e açúcar? Eu não quero uma vida sem gosto! Prefiro viver menos, mas cercada de guloseimas!
Ainda sobre a cama, com um copo cheio de suco de groselha e mel, tentava enganar o estomago - havia sonhado a noite toda com trufas de chocolate e carne seca. Já estava verde, não de fome, mas devido as sopas instantâneas de couve e salsa que tomava para emagrecer. Julgava que seu maior problema era o estômago, porque a cabeça era sã e a alma pura. Seu único medo, pelo menos naquele dia, era de morrer afogada! No entanto, dentro dela ainda havia espaço para um misterioso desejo: ter um fogão. Mas não um fogão qualquer! Ela queria um fogão preto, daqueles de novela. Sonhava com uma cozinha moderna, como as de revista. Quando raramente cozinhava, era para a semana toda. Tratava o marido e o filho como criaturas "sem fundo", nunca estavam satisfeitos. Isso a deprimia profundamente! Seria mais fácil se saíssem para comer todos os dias! Ela tinha hábitos noturnos, cozinhava à noite – fazia comida para durar a semana toda! Porém, o cheirinho da comida fresca pela casa fazia com que todos devorassem tudo em poucos minutos - terminavam as refeições ansiados e quase sempre deprimidos! Nessas horas, até a vizinha deixava de lado os sórdidos pensamentos mortais!
- Aí querido... come, come! - Gritava a vizinha.
Felicidade era passear no mercado, e com pouco dinheiro, faziam compras à noite. O pobre marido até tentava instruí-la, mas sobre as compras ela sempre retrucava categoricamente:
- Tem que ser à noite sim! Não quero que me vejam ser obrigada a entregar alguma mercadoria! - Explicava-se ao marido.
Certa vez, depois da meia noite, na sessão de doces, teve uma vertigem entre as inúmeras embalagens coloridas. Com o mercado vazio, pensou estar no paraíso. Pressentiu que morreria imediatamente se não tivesse na boca uma doçura! Pediu refrigerante ao improdutivo marido:
- Refrigerante não pode! Beba água mulher, você precisa baixar a diabetes! Beba bastante água se não morrerá aqui na frente de todo mundo! Beba logo que eu não quero passar vergonha! - E finalizou o seu discurso com firmeza: - Em casa quando estiver na cama eu te dou refrigerante!
O mundo havia acabado para ela:
- Adeus fogão! – Lamentou.
Acordou com um cheirinho de ovo frito com viradinho de feijão impregnado pela casa. Fazia meses que não sabia o que era ir ao banheiro, porém, não estava cheia nunca. Levantou ainda meio estonteada, foi até a cozinha sorrateiramente como um rato e lá se deparou com a visão dos seus sonhos: um lindo fogão cromado com detalhes em preto, todo automatizado. Sua cozinha parecia ter se transformado exatamente como aquelas de novela, com mármore grã-fino e tudo mais devidamente ajeitado e asseado - era um presente! O fogão estava em destaque, era enorme, cheio de botões e mecanismos. Ao lado do fogão, o improdutivo marido e o filho traquinas a esperavam solenemente ao lado da mesa posta. Ela não entendeu porque não estavam tão felizes quanto ela... ainda mais com aquele cheirinho! Viu que havia um lugar especial à mesa para ela. Estimulada pelo aroma, não pensou duas vezes, sentou-se sem titubear. Então, o fogão se abriu automaticamente e ela maravilhou-se com as enormes chamas tremulantes que se projetaram para cima dela! Extasiada, até tentou gritar de alegria:
Querido, o que vai ter para o jantar?

5 comentários:

Franck disse...

Como sempre, intenso! Abçs!

Momentos disse...

MA.RA.VI.LHO.SO! qUe isso gente! Amei! tudo tudo tudo!

Jesana disse...

Adooooreeeeiii, rico em conteúdo, detalhado,perfeito... Só podia ser obra de amigo meu hehehe

Edilson Vieira disse...

Que bom que você existe! Melhor: que bom que você escreve tão bem, tão transcendente, tão metalinguístico... Parabéns...

Bruno disse...

Amei ... como sempre ... divertido e intenso ... quando escolheremos nosso fogão??? hehehehh ... ah e oq ue vai ter para o jantar? Insulina? Diabetes? como assim? eu so quero é ser feliz ...

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