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23 agosto, 2010

ENTARDECER DE UMA ESTRELA

Nicoletta Ceccoli
Entrou na maternidade já em trabalho de parto às nove horas da manhã. Estava ansiosa por aquele momento. Ninguém lhe explicou sobre os segredos da vida, mas ela os sentia em seu coração. Estava eufórica, entre lágrimas e gargalhadas histéricas. Às onze horas da noite ainda tentava parir aquela criança.
- Socorro, tira isso de mim! Por que não me falaram antes que era assim? – Gritava a pobrezinha de cócoras em cima da maca. A barriga estava enorme, cheia, do tamanho da lua. Dentro havia uma criança, e por incrível que pareça, estava entalada, propositalmente grudada, ou melhor, enrolada em uma tripa entre o coração e o intestino - pelo menos era assim que lhe parecia.
- Calma senhora, já vai terminar, eu garanto! – Explicou o médico.
- Terminar? O senhor tá me dizendo que vou morrer? É isso? Saí da minha frente e não toca mais em mim! Aí que dor! Abram essa janela que eu quero respirar! - Gritou a pobre mulher. E assim que a janela foi aberta, ela também abriu as pernas, e as estrela brilharam além do céu para dentro dela. E a meia noite a criancinha foi expelida. Veio ao mundo atraída pela luz. Ela não chorou. Nasceu morta. Era roxa e grande, ou melhor, rechonchuda. E talvez, por milagre, misteriosamente abriu os lindo olhos, primeiro um e depois o outro, e sorriu. A espertinha já nascera fazendo cena, ou melhor, drama. Não houve balança na maternidade que a suportasse. Tentaram vesti-la com uma roupinha preta que a mãe comprará anos antes, porém, tiveram que enrolá-la em um lençol branco. A mãe apavorada não quis segurar a criança nos braços. Ela, envolta no tecido, só tinha olhos para o céu. Tiveram que sedar a mãe para a coitadinha poder mamar.
- Como eu não imaginei, com uma barriga do tamanho da lua só poderia nascer um monstro! Tenha misericórdia senhor!
Levou dias para a mãe se acostumar com as feições da criança. Não quis saber se era menino ou menina. Amedrontada, advertia as visitas que a criança era feia e não precisavam usar de falsa modéstia com ela. A criança era tão volumosa que não dava para analisar se era menino ou menina. No entanto, mamava tanto, que chegava a tirar sangue das tetas da mãe. Tinha fome e sede de vida. Os olhos grandes reviravam de prazer ao sugar todo o leite tépido e pastoso. A mãe, pobrezinha, estava anêmica. Sentia que além do leite a criaturinha lhe sugava até a alma.
- Como eu não imaginei, eu vivia desnutrida por causa dessa cria que me consumia desde que foi enfiada no meu ventre! – Explicava-se às enfermeiras.
Só aos dois anos de idade foi descoberto que a criatura em questão era uma menina. Uma menina que mamaria até os nove anos de idade. E por isso, se tornou linda e viçosa. Vestia-se com roupinhas de cetim, laços de fita, calçolas de renda e perfumes. Adorava tranças e óculos também. Só largou da teta da mãe para brincar na casa das coleguinhas. Na verdade, brincar ela não brincava, ela saia para comer; já que em casa a comida nunca era suficiente. Saia todo o santo dia às nove da manhã e só voltava na hora do almoço.
Ao passear pela rua, saltitando e cantarolando, sonhava em ser uma grande atriz. Uma atriz daquelas dos filmes estrangeiros. Seu maior medo era de ser raptada por algum tarado maníaco assassino. Ao longo da sua infância, desenvolveu pavor inexplicável por carros estacionados na sua rua, principalmente se fosse uma Kombi. Kombi era para ela uma espécie de automóvel que só servia para raptar criancinhas para lhes tirar o fígado. Certava vez, ao voltar para casa, avistou uma estacionada próxima ao portão da sua casa. Como não era tola, tratou de se desarrumar. Despenteou os cabelos, sujou o vestido e passou terra no rosto, afinal, quem se interessaria por uma menina feia e suja. E assim, toda desengonçada, estufou o peito, fitou o portão e caminhou com passos firmes em direção de casa. Tudo seguia como o planejado, até que a poucos metros do portão, a Kombi buzinou. Aterrorizada, correu o mais rápido que pode. Suas perninhas não agüentaram o peso do seu corpo e ela começou a gritar histericamente. Nervosa, quase desfalecida, passou pelo portão como uma vespa e caiu na porta da cozinha aos pés da mãe toda urinada. A mãe apavorada achou que dessa vez não era mais uma das cenas criadas pelo pobrezinha, porém, dúvidou ao ouvir a doce voz perguntando:
- Hum, que cheirinho! O que tem para o almoço mamãe?
No decorrer da sua existência, a menina foi trata a pão-de-ló e mimos. Sempre teve as mais lindas roupas, botas e brincos. Era ousada e extravagante; inspirava-se nas velhas atrizes de cinema e teatro. Seu coraçãozinho delicado e sua alma sensível contrastavam com sua avidez por guloseimas. Era apaixonada pelas nobres coisas da vida. Adorava música, literatura e pintura. Conhecia de cor e salteado as obras de Shakespeare e cantava como uma cotovia as músicas de Puccini e Verdi. Alimentava a alma com poesia e o corpo com brigadeiro, ovo frito e maionese. Logo se tornou uma mocinha astuta e perspicaz. No entanto, não era completamente feliz, justamente por causa do seu tamanho.
Na escola era uma aluna exemplar. Tinha muitas amigas, no entanto, era tímida demais para se aproximar dos meninos. Apaixonou-se inúmeras vezes sempre em silêncio. Aparentemente nunca a discrimaram, já que ela mesma se encarregava disso. Certa vez tentou até mesmo se suicidar por intoxicação com incenso, mas viu que a notícia nos jornais não chamaria muito a atenção, já que ainda não era famosa. E outra vez as janelas foram abertas, as luzes das estrelas entraram, o ar circulou, ela respirou e a vida prosseguiu.
Durante o colegial montou espetáculos ao lado de excêntricos colegas. Logo ficou famosa no bairro pelas atuações nas peças da igreja. Adorava montar a paixão de cristo e autos de natal. Ela mesma escrevia, produzia e encenava. Tudo era muito pomposo e ousado para a época. Frequentemente escandalizava a comunidade; algumas vezes mostrou Maria depressiva exigindo o divórcio e até mesmo se negando a amamentar. Madalena era a sua personagem favorita, retratava-a sempre cantando e dançando, sempre com uma cobra de estimação. Ela superou-se ao revelar Eva, arrasada, descobrindo que Adão não queria comer do fruto. Infelizmente, era uma artista incompreendida, pois foi proibida de continuar no grupo de teatro da igreja; o que a motivou a alçar vôos mais altos. Teve a audácia de fazer um curso profissionalizante na Capital. Quando estava prestes a brilhar nos grades cafés e teatros da metrópole, uma nuvem cobriu sua estrela. Foi obrigada a retornar para casa para cuidar da sua amada mãe. Sim, passado o trauma, mãe e filha tornaram-se uma só. E assim, dos palcos do teatro, passou a trabalhar como caixa de banco. Do futuro promissor, passou a reviver do passado. Da grande atriz especializada em tragédias clássicas e ópera, passou a animar festinhas de aniversario e casamento. Do sonho de casar, restou viver amasiada. No entanto, o destino lhe preparava outras pequenas grandes surpresas. Sua querida mãe, como por milagre, retornou do mundo dos mortos, trazendo consigo alguns dons especiais. Contudo, retomar os ensaios da sua antiga vida lhe parecia impossível. Nesse momento, os excêntricos amigos já tinham partido não se sabe para onde. Fosse como coadjuvante ou protogonista do seu próprio destino, ela era extraordinária.
Enérgica, como sempre, não se deixou desvanecer. Descobriu tardiamente que bastava viver para não se gostar de tragédia, por isso, a escassez de público nas suas montagens. Obstinada, ela montou sua própria companhia de teatro, porém, especializada em comédia. Era como se prostituir, pois montava os espetáculos apenas em busca de dinheiro. O povo ria e ela lamentava. O povo gargalhava e ela chorava. Com a grana construiu sua própria casinha. Como os lucros não eram satisfatórios, construiu apenas um minúsculo quarto, como um camarim, no qual cabia apenas ela. Descobriu que era impossível viver da arte e pior ainda era trabalhar como caixa de banco. Vestida com trajes de veludo, cetim, rendas, fitas perfumadas e adornada de pulseiras, brincos e muita maquiagem, foi misteriosamente atraída para dentro do seu quartinho por uma estranha energia. E lá no quentinho, em uma noite de inverno, recostou a cabeça sobre uma linda almofada vermelha e adormeceu. Do lado de fora, sem poder entrar na casa, por que não havia espaço, ficaram a mãe e seu amado, que congelaram sob o intenso frio. Passaram-se vários meses, mas, por um momento, ela sonhou que sua vida tinha sido grandiosa como a lua, ou melhor, como a linda barriga da sua mãe; da qual ela nunca deveria ter saído. E lá dentro, não se sabe se da casa ou da barriga, ela viu uma estrela na escuridão, que brilhava sem parar, assim como um sonho.

4 comentários:

Bruno disse...

Engraçado, comico, incrivel, depressivo, instigante e ao mesmo tempo um reflexo de muitas coisas que ja vivemos ouvimos e muitas pessoas que se encaixam em diversos momentos desse conto ... maravilhoso ... me diverti muito ... Beijo Grande to orgulhoso !!!

Ira Buscacio disse...

Emerson,

Extrarodinário!!!!!!!!!!!!!!

Fiquei comovida e orgulhosa de te ler. saber que ainda tem salvação pra arte, que existe uma nova gearção de autores magníficos, q msm não estando na mídia fazem acontecer. Que bom que temos essa ferramenta "BLOG"
Parabéns!

Bjinho

Franck disse...

Parabéns, sempre! Tão bom começar domingo com este texto!
Abçs!

Alessandra Santos disse...

humm sou suspeita de falar sobre esse...
confesso que é estranho e maravilhoso ao mesmo tempo é incrivel como consegues expressar tudo que sentimos e vivemos num conto que para mtos é um apenas um conto mas para alguns é uma vida!
bjux te amo

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