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06 abril, 2010

A BELA DESVANECIDA

Dina Goldstein
- Foi tanto amor! – Pensava ela. Amor por parte dela. Porque ela amou, ela cuidou, ela lavou, ela passou, ela secou, ela ligou, ela presenteou, ela pagou, ela deu... Ele só metia. Metia os pés pelas mãos. No dia ela quis chorar, mas ele secou até a última gota de cerveja do copo dela. Cada um foi para o seu lado sem olharem para trás. Mentira! Ela correu desesperada atrás dele. Ele estava com a bolsa dela! Já em casa, ela dormiu como a Cinderela.
- A Cinderela. Cin-de-re-la. – Soletrava ela.
Estava cansada de sonhar. Não faria mais nada dali para frente. Seria ótimo poder agora reler os clássicos como Alan Poe ou Willian Blake. Na sua cabeça ainda pairava uma dúvida. Uma grande dúvida sobre aquele trágico dia. Ela passou a relembrar os fatos em voz alta. Morava sozinha mesmo! Então, recapitulou  em voz alta, muito alta, para o mundo inteiro ouvir:
- Ele só me fodia, daí ele tentou me assaltar, eu corri e peguei minha bolsa. Bebi. Chorei. Chorei, Bebi. Sentei no parquinho. Bebi. Chorei. Será que comi? Cheguei cansada e dormi! Ah! Mas não pode ser... Tem algo errado! Não consigo me lembrar! – E de um salto, ela acabou de vez com a sua dúvida: - Foi a Bela Adormecida que dormiu e não a Cinderela!
Cinderela era apenas uma abóbora para ela. E assim, o destino dela seguiu... Já em casa, ela dormiu feito a Bela Adormecida. De bela não tinha nada. O espelho deixou de presente para a madrasta. Ela lembrou de súbito que não tinha bebido e nem chorado. O parquinho era a carrocinha do cachorro-quente, onde comeu horrores a noite toda. Quando dormiu não foi de cansada, mas de empanzinada. Sobre o “fazer nada dali para frente” é a única  verdade. E os clássicos? Mentira! Ficou mesmo foi com os clássicos da Disney. Ela a-do-ra-va a Bela Adormecida, mas chorava só de pensar no príncipe. Espera! Se a história for bem contada fica assim: Ela odiava a Bela Adormecida e sentia vontade de comer só de pensar no princípe ladrão de bolsas. Sua bolsa era a sua casa. O corpo dela realmente não fazia nada, mas os pensamentos a inquietavam. Já no sétimo dia ela sentiu um cheiro horrível na sua bolsa. Estava de férias. Lembrou que precisava retirar o lixo. Sua casa era minúscula. Só cabia ela, a bolsa e os clássicos da Disney. Se arrumasse mais coisas teria que se mudar. O dinheiro do aluguel era con-ta-di-nho. Levava todo santo mês para o evangélico dono da imobiliária. Não, ela nunca pensou em ser crente! Ela pensava às vezes em ter um quintal e uma garagem. Vivia assim, apertada.
- Fico puta! Como o cara me constrói um puxadinho pra eu colocar minha maquina de lavar roupas e estender minhas calcinhas e depois enfia o carro dele? – indagava a moça já nem tão moça assim.
Tinha dias que ela não tinha como sair de casa porque o carro era um estorvo na sua porta.
- Escuta aqui, onde está o meu espaço no contrato dessa joça? – Gritou ela, dessa vez mentalmente.
Pensou varias vezes em furar o pneu com muito ódio, mas no fundo ela tinha medo de ir para o inferno.
Era um terror viver numa casa que não tinha entrada, onde a janela deveria ficar fechada porque dava direto para a estrada. Tinha pavor de ser vista deitada de calcinha sobre a cama desarrumada. Se houve a promessa de que a cidade cresceria foi mentira.
- As salas comerciais viraram casebres, magníficas obras arquitetônicas criadas para pessoas adaptáveis como eu – divagava ela.
Finalmente moveu o corpo para retirar o lixo. Mas como tiraria com o carro do vizinho enfiando na cara dela? Não teve o que fazer. Ficou ali de calcinha sobre a cama desarrumada com a janela fechada o resto do dia; envolta naquele cheiro insuportável. Só as lembranças ainda habitavam aquela casa.
- Foi tanto amor! – Delirava ela.
No fundo estava feliz, por que onde caberia ele na sua casa? O mau cheiro pelo menos não ocupava espaço na sua vida. Então, abriu um dos clássicos e começou a ler em voz alta, muito alta, mas muito alta mesmo, para todo mundo ouvir...
- "ERA UMA VEZ UMA PORCA CHAMADA CINDERELA... OU SERIA CHAPEUZINHO VERMELHO?"

http://dramoscopio.blogspot.com/

8 comentários:

Bruno disse...

Uepa ... e viva o amor ... As expectativas da vida ... a convivência a dois ... Bem lindo, engraçado e ao mesmo tempo nos deixa pensativos e preocupados ... huahuahuahauhauhauahuahuahauah ... parabéns ... Grande beijo do seu fã ... Bruno

Anônimo disse...

vc nos remete a uma atmosfera bela e aterrorizante ao mesmo tempo! fantastico! volterei sempre :)

mARINA mONTEIRO disse...

li tudo e dei risada,,,,é isso né....você me faz chorar de rir...fugi da chuva, porque to em floripa...a turnê acabou e eu vou voltar pra casa....embora aqui também seja a minha casa...e na verdade como diria a musica: o tempo é minha casaaaa....eu moro é na saudade.....ô lar lindo e dolorido...esses dias lembrei de você me assustando no meio da noite com brinquedinho que acendia a luz...se isso não é amor, o que mais pode ser? eu gosto é disso, de quem me tira gargalhadas, pânicos, ironias, e muito amor....sinto demasiadamente a sua falta....quando me visita?
aiai...

Mari Espezim disse...

Querido Emerson, não concordo com outras que dizem que é mórbido e trágico.. é estremamente realista encarado com um humor fantástico! Ao mesmo tempo que é forte, tbm é leve e cheio de esperança! E o que é vida? Se não uma grande ilusão... seus contos me inspiram a ter esperança! saudações querido!

Manuela Penzlien Medeiros disse...

Seja super bem-vindo ao meu blog! E parabéns pelo seu trabalho.
Beijos.

Vampira Dea disse...

Parabéns. Caminhando sempre por esse nosso caminho de flores e espinhos.

Tensionada disse...

Caro Meco...

Adorei o que vc escreveu.
Cada palavra me fez refletir a realidade da mulher atual.
Infelizmente, em diversos momentos vc pintou com maestria esse terrível fato...

Fique bem...

Serei sua mais nova seguidora.

Letícia disse...

Eu adoro as fallen princesses da Dina Goldstein. Sempre me fazem pensar em como seriam as princesas modernas.

Muito boa a sua versão. ;D

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